Por Enio Fonseca e Decio Michellis Jr.
“Love is in the air, everywhere I look around.”
(“O amor está no ar, por toda parte para onde eu olho.”)
(John Paul Young)
A expressão “Love is in the air” (“O amor está no ar”) é muito mais antiga do que a famosa canção que a popularizou. Ela deriva de uma metáfora presente na literatura e na poesia europeias desde pelo menos os séculos XVIII e XIX, segundo a qual o amor é percebido como uma força invisível que permeia o ambiente e contagia as pessoas, da mesma forma que o ar que respiramos.
A ideia está ligada à concepção romântica de que determinadas épocas do ano, especialmente a primavera, despertam o amor. A natureza floresce, os animais entram em período reprodutivo e as pessoas parecem mais propensas ao romance.
Foi, entretanto, a música Love Is in the Air, gravada em 1977 pelo cantor australiano John Paul Young e composta por Harry Vanda e George Young, que transformou a expressão em um fenômeno mundial. A canção alcançou grande sucesso internacional e passou a ser associada a casamentos, celebrações românticas e histórias de amor.
O ar é invisível, está presente em todos os lugares e é indispensável à vida. Ao associar o amor ao ar, a expressão sugere que ele também é invisível, difuso, compartilhado por todos e capaz de envolver as pessoas sem que elas percebam exatamente quando ou como isso acontece. O amor não seria algo que se vê, mas algo que se sente e que permeia o ambiente.
É justamente essa carga simbólica que torna interessante a paródia “O amor está no ar-condicionado”. Em tempos de mudanças climáticas e ondas de calor, ao substituir o ar natural pelo ar artificialmente climatizado, temos um contraste entre o espontâneo e o controlado, onde o amor contemporâneo pode estar cada vez mais condicionado pelo conforto em um ambiente climatizado, pela tecnologia, pelo consumo e pelos ambientes urbanos (no Censo Demográfico 2022 do IBGE, 87,4% da população brasileira vive em áreas urbanas, no Sudeste 94,4%), em vez de surgir livremente na natureza ou nas circunstâncias imprevisíveis da vida.
9 em cada 10 brasileiros vivem em cidades, a maior parte das interações sociais ocorre em ambientes fechados e climatizados — escritórios, shopping centers, aeroportos, universidades, restaurantes, academias, hospitais e edifícios residenciais. Mesmo quem não possui ar-condicionado em casa passa grande parte do dia em ambientes climatizados. O ar-condicionado deixou de ser apenas um aparelho e passou a representar a própria civilização urbana contemporânea. Nesse sentido, pode-se dizer que, na sociedade contemporânea, o amor está menos “no ar” da natureza e mais “no ar-condicionado” das grandes cidades.
Um mundo em aquecimento (natural e antropogênico) exige adaptação. Isso significa ar-condicionado, nebulizadores e produção de gelo em quantidades cada vez maiores para atender ao aumento de temperaturas. A faixa de temperatura “amigável ao clima” recomendada, de 26 °C no verão e 20 °C no inverno, se compara aos níveis de conforto da maioria das pessoas, em torno de 23 °C durante todo o ano.
Ilhas de Calor Urbanas: quando as cidades alteram o próprio clima
O crescimento acelerado das cidades produziu uma das mais evidentes transformações ambientais da era contemporânea: a formação das chamadas ilhas de calor urbanas. O fenômeno ocorre quando áreas densamente urbanizadas apresentam temperaturas significativamente superiores às de suas regiões periféricas ou rurais, modificando o microclima local e influenciando diretamente a qualidade de vida da população.
A substituição da vegetação por edifícios, ruas asfaltadas, estacionamentos e grandes superfícies de concreto reduz a capacidade natural do solo de absorver e dissipar calor por meio da evapotranspiração.
Ao mesmo tempo, materiais como asfalto, concreto, vidro e aço possuem elevada capacidade de absorver a radiação solar durante o dia e liberá-la lentamente ao longo da noite, impedindo o resfriamento natural do ambiente urbano.
A verticalização das cidades também contribui para o fenômeno. Grandes edifícios formam verdadeiros “cânions urbanos”, dificultando a circulação dos ventos e reduzindo a dispersão do calor acumulado. Soma-se a isso o calor antropogênico gerado pelas atividades humanas: motores de veículos, sistemas industriais, equipamentos eletrônicos e, especialmente, os aparelhos de ar-condicionado, que retiram calor dos ambientes internos para liberá-lo no espaço externo.
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Mapa-de-sao-paulo-ilhas-de-calor.jpg
Cria-se, assim, um ciclo de retroalimentação. Quanto maior a temperatura nas ruas, maior a demanda por climatização dos edifícios. Quanto maior o uso do ar-condicionado, maior a quantidade de calor rejeitada para o ambiente externo e maior o consumo de energia elétrica. Em consequência, as temperaturas urbanas podem elevar-se ainda mais, ampliando a intensidade da ilha de calor.
Temperaturas elevadas aumentam o consumo de energia, reduzem a eficiência dos sistemas elétricos, agravam a formação de poluentes atmosféricos e elevam os riscos à saúde pública, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças cardiovasculares e respiratórias. Ondas de calor intensificadas pelas ilhas urbanas podem elevar significativamente a mortalidade durante os períodos mais quentes do ano.
O aquecimento urbano altera o regime hidrológico local. Superfícies impermeáveis reduzem a infiltração da água no solo, intensificando o escoamento superficial e aumentando a frequência de enchentes. A combinação entre calor excessivo, baixa umidade relativa e poluição atmosférica compromete o conforto ambiental e diminui a resiliência das cidades diante das mudanças climáticas.
Impulsionada pelas ondas de calor e pela redução dos preços dos equipamentos, a climatização artificial (ar-condicionado), como resposta ao calor só cresceu: estima-se que 6,5 milhões de aparelhos de ar-condicionado foram comercializados em 2025.
O conforto tornou-se um pecado climático
O verão europeu de 2026 expôs uma contradição que há muito tempo se escondia sob o discurso da sustentabilidade.
Enquanto termômetros ultrapassavam os 40°C, escolas encerravam atividades, hospitais operavam sob pressão, trabalhadores tinham jornadas interrompidas e milhares de pessoas buscavam qualquer sombra disponível, o debate político parecia seguir outro caminho. Em vez de discutir prioritariamente como proteger as pessoas do calor extremo, uma parte significativa da discussão concentrou-se em um tema surpreendente: seria o ar-condicionado parte da solução ou parte do problema?
A pergunta parece absurda. Afinal, poucas tecnologias salvaram tantas vidas em ambientes quentes quanto a refrigeração artificial. No entanto, para parte do pensamento ambiental europeu, o ar-condicionado representa uma adaptação indesejável, por aumentar o consumo de eletricidade, exigir expansão da infraestrutura energética e lançar calor para o ambiente externo, agravando, em certa medida, o efeito das ilhas de calor urbanas. Um paradoxo de uma sociedade que, em nome da sustentabilidade, passa a enxergar tecnologias de adaptação como um problema em vez de uma conquista civilizatória.
O calor que hoje sufoca cidades europeias não nasce apenas da atmosfera. Nasce também das próprias cidades. Décadas de urbanização substituíram solos naturais por concreto, asfalto, vidro e aço. Árvores deram lugar a estacionamentos. Jardins foram ocupados por edifícios. A água desapareceu sob quilômetros de pavimentação impermeável. O resultado é um gigantesco acumulador de energia térmica.
A Agência Europeia do Meio Ambiente demonstra que milhões de europeus vivem em áreas fortemente afetadas pelo fenômeno das ilhas de calor urbanas. Nessas regiões, a temperatura permanece vários graus acima das áreas rurais vizinhas, inclusive durante a noite, justamente quando o organismo humano deveria recuperar-se do estresse térmico.
Curiosamente, essa parcela do problema recebe muito menos atenção do que o dióxido de carbono. Talvez porque árvores, parques, corredores de ventilação urbana e planejamento territorial não produzam manchetes tão impactantes quanto conferências climáticas internacionais.
Enquanto isso, a realidade insiste em impor suas prioridades. Uma onda de calor não espera o plantio de milhões de árvores. Não aguarda reformas urbanísticas. Não consulta planos decenais de adaptação. Ela simplesmente chega.
E quando chega, o corpo humano responde antes da ideologia. Existe alguma obrigação moral de sofrer calor?
Durante séculos, o progresso humano consistiu precisamente em libertar as pessoas dos limites impostos pela natureza. Construímos casas para escapar da chuva, aquecimento para enfrentar o inverno, antibióticos para combater doenças e irrigação para vencer as secas. Nunca consideramos essas tecnologias uma afronta ao equilíbrio natural. Pelo contrário, chamamo-las de civilização.
Por que, então, justamente a tecnologia destinada a proteger pessoas do calor passou a ser vista, em certos círculos, quase como uma falha ética?
Talvez porque o debate climático tenha produzido uma inversão curiosa. O conforto passou a despertar desconfiança. O consumo tornou-se sinônimo de culpa. E a adaptação tecnológica começou a ser tratada como uma espécie de derrota moral.
Entretanto, a fisiologia humana permanece indiferente às construções ideológicas. Idosos continuam morrendo de hipertermia. Crianças continuam sofrendo desidratação. Pacientes hospitalizados continuam necessitando de ambientes climatizados. O calor extremo não distingue convicções políticas.
Nos Estados Unidos, no Japão, na Coreia do Sul e em grande parte do Oriente Médio, o ar-condicionado tornou-se um componente banal da infraestrutura urbana. Na Europa Ocidental, ao contrário, sua difusão permaneceu relativamente limitada, reflexo de um clima historicamente mais ameno e de políticas energéticas orientadas pela contenção do consumo.
As estimativas (Pesquisa de Posse e Hábitos de Uso de Equipamentos Elétricos (PPH/PROCEL)) indicam que 20% dos domicílios brasileiros possuem pelo menos um aparelho de ar-condicionado residencial. No mundo a penetração do ar-condicionado é: Estados Unidos ≈ 90%; Japão > 90%; Coreia do Sul > 85%; Austrália ≈ 75%, Grécia 66%, França 27,4% das casas e 12,6% dos apartamentos, Alemanha com 3% de residências, o Reino Unido com 5%.
Agora, porém, o clima parece mudar mais rapidamente do que os edifícios. Naturalmente, ninguém propõe transformar o ar-condicionado na única resposta. Ele não substitui cidades arborizadas. Não elimina ilhas de calor. Não corrige décadas de planejamento urbano inadequado. Não reduz emissões de gases de efeito estufa (GEE).
Mas tampouco faz sentido condená-lo justamente quando ele representa uma das poucas formas imediatas de proteger vidas humanas durante eventos extremos.
A verdadeira sustentabilidade talvez exija uma mudança de perspectiva. Mitigar e adaptar não são estratégias concorrentes. São estratégias complementares. Reduzir emissões (mitigar) busca proteger as próximas gerações. Adaptar cidades protege as pessoas que enfrentarão o próximo verão. Confundir essas duas dimensões significa sacrificar o presente em nome do futuro.
No fundo, o debate europeu revela uma pergunta muito maior do que o destino do ar-condicionado. Qual deve ser a finalidade última das políticas ambientais? Preservar indicadores? Ou preservar pessoas? Porque, quando a temperatura ultrapassa os quarenta graus, o corpo humano não responde a discursos. Responde à física.
Antes de discutir como salvar o planeta, talvez seja necessário lembrar por que desejamos salvá-lo. A resposta nunca foi o clima. Sempre foram as pessoas.
Porém este contexto marcado pela artificialidade, pelo conforto, pelo controle e pela mediação tecnológica está cada vez mais ameaçado: com o ativismo climático, governos tentam impedir que as pessoas tenham ar condicionado.
“A Europa está permitindo que pessoas morram desnecessariamente. Estamos no século XXI. Não estamos em 1900. Não estamos em 1915, Morano na TV: Você pode ter ar condicionado na Europa — mas só depois de morto! 2quando ondas de calor matavam multidões no mundo ocidental. Estamos no século XXI, em 2026. A Europa não consegue se organizar em relação a princípios básicos de saúde pública e permitir o uso de ar-condicionado. Eles estão obrigando as pessoas a sofrer e permitindo mortes por excesso de calor porque não permitem o uso de ar condicionado devido a uma ideologia climática.” ()
Na Inglaterra, o governo está removendo o ar-condicionado das casas que não cumprem o rigoroso código de emissões líquidas zero — as normas de construção exigem que o ar condicionado só seja utilizado quando outras medidas forem insuficientes – o que, na prática, proíbe o ar condicionado em casas novas, para demonstrar virtude em relação às mudanças climáticas e ao movimento de emissões líquidas zero, além de atingir suas metas de emissões. ()
Na Espanha, restringiram o uso de ar-condicionado a 27 °C ou mais em estabelecimentos comerciais. O ar-condicionado em prédios públicos deve ser ajustado para uma temperatura não inferior a 27 ºC, de acordo com o decreto governamental recém-aprovado sobre eficiência energética. No inverno, escritórios e edifícios onde trabalham funcionários públicos não serão aquecidos acima de 19 ºC. ()
A ministra da Transição Ecológica da França (do presidente Emmanuel Macron e do primeiro-ministro Sébastien Lecornu), Monique Barbut definitivamente não concorda com a ideia de permitir que os camponeses tenham ar-condicionado. O jornal Le Figaro inclui algumas citações extensas de Barbut: “Ela diz de si mesma que fica “horrorizada com as pessoas que lhe dizem que tudo o que precisamos fazer é instalar ar-condicionado em todos os lugares”. Para ela, “não se trata de adaptação, mas sim de uma medida apropriada apenas para emergências”. Barbut acrescentou, como considerava o argumento definitivo, que o ar-condicionado não “impediria nenhum incêndio florestal”…” ()
O Le Figaro inclui um editorial próprio na primeira página. Trecho: “[Barbut] é uma ativista disfarçada de ministra… As palavras de Barbut não são científicas nem ecológicas; são religiosas. Para ela, assim como para os outros fanáticos que confundem o cuidado com o mundo com sua própria agenda ideológica, o inquestionável aquecimento climático não é um fenômeno ao qual as sociedades devam se adaptar, mas sim um castigo que devemos aceitar coletivamente… Para eles, trata-se de expiar nossos pecados… Que tais pessoas ocupem um lugar em nosso Conselho de Ministros é um grave erro político.” ()
A mortalidade relacionada ao calor também tem aumentado na Europa: no verão de 2022, foram estimadas cerca de 68.000 mortes relacionadas ao calor; em 2023, cerca de 50.800; e em 2024, cerca de 62.800. A Europa é um continente que desfruta de relativa riqueza e, por sua latitude, de menos dias quentes do que a maioria das regiões habitadas, registra, ainda assim, a maior taxa de mortalidade por calor per capita do mundo e apresenta a menor penetração de ar condicionado entre as regiões ricas. A idade explica parte disso (ter uma população idosa maior e a vulnerabilidade ao calor aumenta exponencialmente com a idade) — mas os Estados Unidos e o Japão também têm populações envelhecidas e, mesmo assim, apresentam um número muito menor de mortes relacionadas ao calor.
“Se a Europa tivesse uma penetração de ar condicionado semelhante à da América do Norte no verão de 2022, o continente teria evitado cerca de 26.000 mortes por calor em um verão como o de 2022 (variando entre 22.000 e 31.000). Uma cobertura quase universal atingiria cerca de 35.000 pessoas. Mesmo uma cobertura mínima de 40% — abaixo dos níveis atuais da Espanha ou da Itália — salvaria algo entre 6.000 e 8.000 vidas por ano.” ()
Adaptado de Roger Pielke Jr., https://www.aei.org/articles/europes-deadly-aversion-to-air-conditioning/
Essas regulamentações não surgiram por acaso. Elas refletem uma visão de mundo baseada na ideia do decrescimento energético, segundo a qual a redução do consumo de energia constitui o principal caminho para enfrentar as mudanças climáticas. Sob essa perspectiva, cada quilowatt-hora consumido deixa de ser visto como um instrumento de conforto, saúde, produtividade e proteção da vida humana, passando a ser tratado como um custo ambiental a ser evitado.
Como consequência, as políticas públicas europeias passaram a privilegiar quase exclusivamente estratégias de isolamento térmico, ventilação natural e resfriamento passivo das edificações. Em contrapartida, o resfriamento ativo por meio de aparelhos de ar-condicionado — mesmo quando alimentados por eletricidade de baixa emissão de carbono — foi frequentemente desencorajado, não por sua intensidade de emissões, mas simplesmente por demandar maior consumo de energia.
O custo humano de viver sem ar-condicionado
Tentar viver sem ar-condicionado tem consequências. E elas vão muito além do desconforto térmico.
Manter o corpo humano dentro de uma faixa de temperatura confortável não é um luxo; é uma condição essencial para a saúde, a produtividade e a própria dignidade. Garantir conforto térmico a milhões de famílias, trabalhadores e estudantes já seria, por si só, um objetivo legítimo de qualquer política pública.
No entanto, poucas tecnologias produziram impactos sociais e econômicos tão amplos quanto o ar-condicionado.
Ambientes climatizados permitem que pessoas trabalhem, estudem e desempenhem suas atividades em condições próximas do ideal fisiológico. Escritórios mais frescos aumentam a produtividade, reduzem a fadiga e melhoram a capacidade de concentração. Estudos mostram que um trabalhador em um ambiente a 30°C produz, em média, cerca de 9% menos do que outro exposto a uma temperatura próxima de 22°C. Nas escolas, os efeitos são igualmente evidentes: ondas de calor reduzem o aprendizado, comprometem o desempenho em exames e ampliam desigualdades, afetando com maior intensidade alunos socialmente mais vulneráveis.
Não por acaso, Lee Kuan Yew, arquiteto da transformação econômica de Singapura, considerava o ar-condicionado uma das invenções mais importantes para o desenvolvimento da civilização moderna. Em sua visão, a climatização dos ambientes tornou possível elevar a produtividade, atrair investimentos e transformar um país tropical em um dos principais centros financeiros e tecnológicos do mundo. Por isso, a expansão do ar-condicionado em escolas, escritórios e edifícios públicos foi tratada como parte da infraestrutura indispensável ao desenvolvimento nacional.
Entretanto, os benefícios do ar-condicionado vão muito além da economia. Em períodos de calor extremo, ele representa uma tecnologia de proteção da vida. A exposição prolongada a temperaturas elevadas aumenta significativamente o risco de insolação, desidratação, estresse cardiovascular, insuficiência renal, agravamento de doenças respiratórias e descompensação de enfermidades crônicas.
Para a maioria das pessoas, temperaturas acima de 28°C já impõem uma carga fisiológica considerável. Entre idosos, crianças, gestantes, pessoas com deficiência e indivíduos portadores de doenças cardiovasculares ou respiratórias, mesmo temperaturas superiores a 25°C podem representar um risco relevante.
Os impactos do calor também se estendem para além da saúde individual. Pesquisas associam ondas de calor ao aumento da violência, da incidência de partos prematuros, das internações hospitalares e da sobrecarga dos serviços de emergência. Hospitais tornam-se menos eficientes justamente quando cresce a demanda por atendimento, enquanto enfermarias superaquecidas e equipamentos sujeitos ao estresse térmico dificultam a prestação de cuidados médicos.
Os grupos socialmente mais vulneráveis suportam a maior parte desse fardo. Famílias de baixa renda vivem com mais frequência em residências mal isoladas, densamente ocupadas e sem acesso à climatização adequada, estando mais expostas ao superaquecimento. Nesses domicílios também se concentram, com maior frequência, idosos, pessoas com deficiência e indivíduos com doenças crônicas — exatamente aqueles cuja capacidade fisiológica de suportar temperaturas elevadas é mais limitada. Em instituições de longa permanência, como lares para idosos, os riscos são ainda maiores.
Grande parte desse sofrimento, contudo, é evitável. Estudos indicam que o acesso ao ar-condicionado pode prevenir aproximadamente três quartos das mortes relacionadas ao calor extremo. Países acostumados a conviver com altas temperaturas há muito compreenderam essa realidade e passaram a tratar a climatização não como um artigo de luxo, mas como infraestrutura essencial de saúde pública, produtividade e adaptação climática.
Sob uma perspectiva histórica, a trajetória da civilização pode ser compreendida como uma sucessão de inovações destinadas a proteger o ser humano dos extremos da natureza. Do domínio do fogo ao aquecimento das habitações, das roupas térmicas ao isolamento das edificações, cada avanço ampliou nossa capacidade de viver, produzir e prosperar em ambientes antes hostis. O ar-condicionado representa mais um capítulo dessa longa história: uma tecnologia que expande a habitabilidade dos espaços, preserva vidas, melhora o aprendizado, eleva a produtividade e fortalece a resiliência das sociedades diante de um clima cada vez mais desafiador.
Em um mundo sujeito a ondas de calor mais frequentes e intensas, restringir o acesso à climatização significa limitar uma das formas mais eficazes de adaptação já desenvolvidas pela humanidade. A verdadeira questão, portanto, não é se consumimos energia para resfriar ambientes, mas como produzir energia abundante, confiável e de baixa emissão para garantir que conforto térmico, saúde e desenvolvimento deixem de ser privilégios e se tornem direitos acessíveis a todos.
“DESTRUIR” uma vila para salvá-la!
A expressão “destruir uma vila para salvá-la” é um contrassenso. Ela descreve uma situação em que se adota uma medida tão extrema que o suposto objetivo original acaba sendo negado pelos próprios meios empregados. É uma crítica à lógica de que “os fins justificam os meios”.
A origem mais conhecida da frase remonta à Guerra do Vietnã. Em 1968, durante a Ofensiva do Tet, um correspondente da Associated Press atribuiu a um oficial americano a seguinte declaração sobre a cidade vietnamita de Bến Tre: “It became necessary to destroy the town to save it.” (Tornou-se necessário destruir a cidade para salvá-la.)
A expressão passou a representar situações em que:
Destrói-se um bem para supostamente protegê-lo;
Sacrifica-se o presente em nome de um futuro incerto;
Elimina-se a liberdade para defender a liberdade;
Enfraquece-se uma instituição para fortalecê-la.
É utilizada para denunciar políticas ou decisões em que os custos são tão elevados que anulam o benefício alegado. A metáfora é frequentemente aplicada a diferentes contextos:
Meio ambiente: devastar ecossistemas para promover um “desenvolvimento sustentável”. Desmatar para Salvar o Planeta. Durante anos, a biomassa florestal foi apresentada como uma fonte de energia “renovável”. A lógica parecia impecável: as árvores absorvem dióxido de carbono durante seu crescimento; ao serem queimadas, devolvem esse carbono à atmosfera; novas árvores seriam plantadas, reiniciando o ciclo. Em teoria, o balanço líquido de emissões tenderia a zero. Porém a crescente demanda por biomassa transformou a madeira em um combustível estratégico. Milhões de toneladas de pellets de madeira passaram a abastecer antigas usinas movidas a carvão convertidas para queima de biomassa. Apenas a usina britânica de Drax consome cerca de nove milhões de toneladas de pellets por ano, quantidade superior à produção anual de pellets da Alemanha e equivalente a uma parcela expressiva da produção madeireira britânica. Essa conversão foi estimulada por volumosos subsídios públicos e pelo enquadramento da biomassa como energia renovável na política energética da União Europeia. As mesmas florestas que durante décadas foram celebradas como importantes sumidouros naturais de carbono passaram, em muitos casos, a ser tratadas como reservas energéticas. Cada árvore derrubada representa carbono que deixa de permanecer estocado na biomassa e no solo. Embora novas árvores possam ser plantadas, uma floresta madura leva décadas — muitas vezes séculos — para recuperar plenamente sua capacidade ecológica. Durante esse intervalo, perde-se biodiversidade, reduz-se a retenção de água, alteram-se habitats e diminui-se a capacidade de armazenamento de carbono. A neutralidade de carbono atribuída à biomassa depende de um horizonte temporal extremamente longo. Quando uma árvore é queimada, praticamente todo o carbono acumulado durante décadas é liberado em poucos minutos. O replantio pode recuperar esse estoque, mas somente após muitas décadas de crescimento. Nesse intervalo, o carbono permanece na atmosfera contribuindo para o efeito estufa. Para reduzir emissões de carbono provenientes do carvão, aumentou-se, em diversas regiões, o consumo de madeira. Para proteger os sumidouros naturais de carbono, intensificou-se a exploração dos próprios sumidouros. Para salvar as florestas, cortaram-se florestas.
Economia: destruir empresas e empregos para “salvar” a economia.
Segurança: restringir severamente direitos civis para proteger a democracia.
Eficiência energética: Ao restringir a instalação de aparelhos de ar-condicionado fixos, acaba-se incentivando a adoção de modelos portáteis, que são significativamente menos eficientes. À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, mais pessoas buscarão formas de resfriar suas residências e, sem a possibilidade de instalar sistemas fixos, recorrerão aos aparelhos portáteis. Embora representem uma alternativa melhor do que enfrentar o calor sem climatização, esses equipamentos consomem mais energia, oferecem menor capacidade de refrigeração e produzem muito mais ruído. Sua eficiência é reduzida porque dependem de uma janela parcialmente aberta para a saída do ar quente, permitindo simultaneamente a entrada de calor externo. Além disso, dificilmente conseguem resfriar o ambiente além de alguns poucos graus, enquanto o compressor instalado no interior da residência pode gerar níveis de ruído superiores a 60 dB, tornando o uso desconfortável, especialmente durante a noite. Eis a ironia: ao dificultar a instalação de sistemas fixos, acaba-se estimulando o uso de uma tecnologia menos eficiente, mais ruidosa e com maior consumo de energia além do risco adicional de curtos-circuitos e incêndios caso a rede elétrica não esteja dimensionada adequadamente. Se o objetivo é maximizar a eficiência energética, a estratégia deveria ser exatamente a oposta: ampliar o acesso a sistemas fixos e incentivar soluções coletivas de climatização, como redes de resfriamento urbano, nas quais centrais de refrigeração distribuem água gelada para múltiplos edifícios.
Saúde pública: impor medidas que geram danos sociais permanentes sob o argumento de proteção coletiva. Exemplo: com o ativismo climático, governos tentam impedir que as pessoas tenham ar condicionado, objeto deste artigo.
Educação: eliminar o pensamento crítico para preservar uma determinada visão de sociedade.
Em todos esses casos, a pergunta implícita é: o que resta para ser salvo depois da destruição?
A força dessa expressão está em revelar um tipo de racionalidade em que os meios deixam de ser avaliados moralmente porque o objetivo declarado passa a justificar qualquer ação. Se, para preservar algo, precisamos destruí-lo, será que estamos realmente preservando esse algo? Quando o remédio mata o paciente, pode-se dizer que ele o curou?
Por isso, “destruir uma vila para salvá-la” tornou-se uma metáfora universal para decisões em que a solução proposta contradiz o próprio problema que pretende resolver, funcionando como um alerta contra políticas, estratégias ou ideologias que sacrificam o essencial em nome de uma promessa futura.
A Pegada de Carbono das Elites Climáticas: quando o discurso encontra a pista de decolagem
O debate sobre as mudanças climáticas tornou-se um dos temas centrais da agenda internacional. Governos, organismos multilaterais, empresas e organizações da sociedade civil defendem a necessidade de reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa (GEE), alterando padrões de produção, consumo e mobilidade. Entretanto, à medida que esse discurso ganha força, cresce também o escrutínio sobre a coerência entre aquilo que seus principais porta-vozes defendem e o comportamento que efetivamente adotam.
Poucos símbolos dessa aparente contradição são tão expressivos quanto o uso de aeronaves executivas por líderes políticos, empresários, celebridades e ativistas ambientais. Embora representem apenas uma fração do tráfego aéreo mundial, os jatos particulares figuram entre os meios de transporte com maior emissão de carbono por passageiro transportado. Estudos amplamente divulgados indicam que um único voo pode emitir várias toneladas de dióxido de carbono, valor superior às emissões anuais de muitas pessoas em países de baixa renda.
Essa realidade alimenta uma questão inevitável: até que ponto é legítimo defender políticas rigorosas de redução de emissões enquanto se mantém um padrão de mobilidade extremamente intensivo em carbono?
O problema transcende a simples crítica moral. A percepção pública de incoerência pode comprometer a credibilidade das próprias políticas climáticas. Diversos episódios recentes ilustram esse fenômeno. Conferências internacionais sobre mudanças climáticas, concebidas justamente para discutir estratégias de descarbonização, passaram a registrar centenas de voos realizados por aeronaves executivas transportando chefes de Estado, executivos, celebridades e representantes de grandes organizações. Fóruns econômicos internacionais apresentam situação semelhante, com concentrações extraordinárias de jatos particulares durante eventos dedicados, entre outros temas, à sustentabilidade.
Sobre a COP30 realizada em Belém (2025), não existe um número oficial divulgado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ou pelo governo brasileiro sobre o total de jatos particulares utilizados. Um monitoramento da organização Trend Asia, com base em dados do Flightradar24 e ADS-B Exchange entre 10 e 17 de novembro de 2025, registrou 317 pousos de jatos privados nos aeroportos de Belém, Brasília, Guarulhos e Fortaleza. Estimou-se que esses voos emitiram cerca de 1.541 toneladas de CO₂. ()
Os defensores dessa prática apresentam argumentos pragmáticos. Chefes de Estado enfrentam exigências de segurança incompatíveis com a aviação comercial. Executivos e autoridades frequentemente precisam cumprir agendas extremamente complexas em curto espaço de tempo. Em alguns casos, aeronaves particulares permitem atender múltiplos compromissos em locais sem conexão aérea adequada. Outros sustentam que o impacto climático desses voos pode ser compensado mediante aquisição de créditos de carbono ou investimentos em projetos ambientais.
Essas justificativas, contudo, não encerram a controvérsia.
Críticos observam que o debate climático contemporâneo frequentemente exige profundas mudanças comportamentais da população em geral: redução do consumo de combustíveis fósseis, substituição de automóveis convencionais, limitação de viagens aéreas, alterações na dieta, aumento da eficiência energética e pagamento de novos tributos ambientais. Quando aqueles que formulam ou promovem essas recomendações mantêm estilos de vida associados às maiores pegadas de carbono individuais, instala-se a percepção de uma ética assimétrica: restrições para muitos, exceções para poucos.
A discussão ganha dimensão ainda mais ampla quando se observa a distribuição global das emissões provenientes da aviação. Pesquisas indicam que apenas uma parcela muito pequena da população mundial realiza voos internacionais com frequência, enquanto bilhões de pessoas jamais embarcaram em uma aeronave. Dentro desse grupo reduzido de viajantes, o segmento que utiliza aviação executiva representa uma elite econômica responsável por emissões desproporcionalmente elevadas em relação ao restante da sociedade.
Sob essa perspectiva, a crítica deixa de ser dirigida apenas a indivíduos específicos e passa a abordar um fenômeno estrutural: a concentração do consumo intensivo de carbono em uma parcela extremamente pequena da população mundial.
É igualmente importante distinguir duas questões frequentemente confundidas no debate público. A primeira é científica: as emissões da aviação executiva efetivamente contribuem para o aquecimento global, assim como qualquer outra fonte de combustão de combustíveis fósseis. A segunda é ética e política: o grau de coerência entre o discurso público dos defensores de políticas climáticas e suas escolhas individuais de mobilidade.
Essas duas dimensões são independentes. Mesmo que o impacto total da aviação executiva represente pequena parcela das emissões globais, sua relevância simbólica permanece elevada. A legitimidade de políticas públicas depende não apenas da consistência técnica de seus fundamentos, mas também da confiança que seus formuladores inspiram na sociedade.
Nesse contexto, surgem propostas de natureza diversa. Algumas defendem tributação específica sobre jatos particulares, argumentando que o custo ambiental desse tipo de transporte não é adequadamente internalizado por seus usuários. Outras sugerem maior transparência na divulgação das emissões associadas a viagens oficiais ou corporativas. Há ainda quem proponha restrições operacionais, incentivos ao uso de combustíveis sustentáveis de aviação ou mecanismos mais rigorosos de compensação de carbono.
Independentemente da solução adotada, permanece uma lição importante. A transição para uma economia de baixo carbono exige transformações tecnológicas, institucionais e culturais. Entretanto, nenhuma dessas mudanças prosperará plenamente se a sociedade perceber que os custos da transição recaem predominantemente sobre cidadãos comuns, enquanto seus principais defensores permanecem relativamente imunes às mesmas exigências.
Em questões ambientais, a coerência constitui um ativo político tão valioso quanto qualquer inovação tecnológica. Quando discurso e comportamento caminham em direções opostas, o problema deixa de ser apenas climático e passa a envolver credibilidade, confiança e legitimidade. Afinal, nenhuma política pública consegue mobilizar amplamente a sociedade quando seus próprios porta-vozes parecem demonstrar que as regras foram concebidas para todos — exceto para eles próprios.
O Carbono dos Outros
Há um antigo princípio romano segundo o qual à mulher de César não basta ser honesta; deve parecer honesta. A autoridade moral exige coerência. Não apenas entre palavras e ações, mas entre aquilo que se exige dos outros e aquilo que se está disposto a exigir de si mesmo.
Talvez nenhuma discussão contemporânea exponha tão claramente essa tensão quanto a agenda climática. Nunca se falou tanto em reduzir emissões, mudar hábitos, abandonar combustíveis fósseis, restringir viagens, eletrificar veículos, alterar dietas, taxar carbono e redefinir padrões de consumo. Em nome da preservação do planeta, praticamente todos os aspectos da vida moderna passaram a ser objeto de escrutínio ambiental.
Quanto mais rigorosas se tornam as recomendações dirigidas à população, mais frequentes se tornam as imagens de longas filas de jatos executivos desembarcando autoridades, empresários, celebridades e ativistas justamente nos eventos destinados a discutir como reduzir as emissões globais. Talvez o problema não esteja apenas no carbono emitido. Talvez o verdadeiro problema seja o carbono moral.
O carbono físico dispersa-se na atmosfera. O carbono moral dissolve a confiança. A crise climática deixou há muito de ser apenas um debate científico. Tornou-se uma questão de legitimidade política. E nenhuma política pública sobrevive quando seus defensores parecem viver segundo regras diferentes daquelas que propõem para toda a sociedade.
Toda civilização repousa sobre um pacto implícito de reciprocidade. Aceitamos pagar impostos porque acreditamos que todos também pagam. Aceitamos cumprir leis porque presumimos que elas alcançam igualmente governantes e governados. Aceitamos sacrifícios quando percebemos que eles são compartilhados. Quando esse pacto se rompe, nasce o ressentimento.
Não importa se o impacto climático de um único jato representa apenas uma fração infinitesimal das emissões globais. A física do carbono pode ser irrelevante diante da psicologia da percepção. Uma fotografia de dezenas de aeronaves executivas estacionadas durante uma conferência climática produz um efeito político infinitamente superior às toneladas efetivamente emitidas. Porque símbolos governam sociedades.
Desde Platão, sabe-se que quem pretende governar deve antes governar a si mesmo. Aristóteles afirmava que a virtude nasce do hábito, não do discurso. Muito depois, Max Weber distinguiria a autoridade baseada apenas no poder daquela fundada na legitimidade.
Talvez a sustentabilidade contemporânea tenha negligenciado exatamente esse ponto. Supostamente construiu extraordinária competência técnica. Produziu modelos climáticos sofisticados. Desenvolveu métricas de emissões, mercados de carbono, taxonomias verdes, relatórios ESG, indicadores de risco climático e complexos sistemas regulatórios.
Mas esqueceu um elemento infinitamente mais simples. O exemplo. Nenhum algoritmo produz autoridade moral. Nenhuma certificação substitui coerência. Nenhum crédito de carbono compensa integralmente a erosão da confiança.
Ao longo da História, elites sempre buscaram distinguir-se pelo acesso a bens escassos. Agora, curiosamente, o bem verdadeiramente escasso parece ser o direito de emitir carbono. Enquanto milhões são estimulados — ou pressionados — a reduzir seu consumo energético, parte das elites preserva para si o privilégio da mobilidade irrestrita, frequentemente justificada como indispensável à condução das grandes causas da humanidade.
Forma-se uma curiosa divisão social. Uns carregam a culpa. Outros administram a culpa. Uns devem reduzir. Outros devem liderar. Uns contam emissões. Outros contam exceções. É como se o carbono deixasse de ser apenas um composto químico para transformar-se em marcador de status. Quanto maior o poder, maior o direito às exceções. Quanto menor o poder, maior o dever da renúncia.
Talvez este seja o aspecto mais inquietante da transição energética. Não a descarbonização da economia. Mas a possível aristocratização da sustentabilidade. Uma ordem em que os sacrifícios são universalizados, enquanto os privilégios permanecem cuidadosamente individualizados.
Porque desafios dessa magnitude somente podem ser enfrentados quando existe confiança entre governantes e governados. Sem confiança, qualquer política ambiental transforma-se em disputa ideológica. Sem legitimidade, toda recomendação passa a soar como imposição. Sem coerência, até mesmo a melhor ciência perde capacidade de convencer.
O maior obstáculo à transição climática talvez não seja tecnológico. Mas a fragilidade da legitimidade moral quando os custos da transição parecem distribuídos de forma desigual. A atmosfera absorve carbono. A sociedade, porém, absorve exemplos. E estes, ao contrário do dióxido de carbono, não podem ser compensados por créditos. Precisam apenas existir.
A Pegada de Carbono da Virtude
Existe uma antiga máxima segundo a qual o exemplo vale mais do que o discurso. Talvez nenhuma área contemporânea tenha se afastado tanto desse princípio quanto o ambientalismo político.
Durante décadas, Al Gore transformou-se no mais conhecido porta-voz da emergência climática mundial. Seu documentário An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente) não apenas influenciou governos, empresas e organismos internacionais, como ajudou a consolidar uma narrativa segundo a qual cada indivíduo possui a obrigação moral de reduzir sua pegada de carbono. A mensagem era simples: consumir menos, viajar menos, emitir menos.
Mas uma pergunta inevitável permanece: quem exige sacrifícios coletivos está disposto a praticá-los?
Os dados apresentados em registros públicos analisados pelo National Center for Public Policy Research revelam um contraste desconfortável. Mesmo após centenas de milhares de dólares investidos em painéis solares, isolamento térmico, sistema geotérmico e outras reformas ambientalmente sofisticadas, a residência de Gore continuou consumindo dezenas de vezes mais eletricidade (a casa de Gore consumiu 30.993 kWh em apenas um mês) do que uma residência média americana (901 kWh/mês). O consumo de energia da casa do ex-vice-presidente chega a ser 34 vezes maior que a média nacional, apesar das caras reformas ecológicas. ()
Em determinados períodos, apenas o aquecimento de sua piscina consumiu energia suficiente para abastecer diversas residências durante um ano inteiro ou 66.159 kWh em um mês.
Segundo os dados mais recentes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo médio de eletricidade por unidade consumidora residencial no Brasil em 2025 foi de aproximadamente 178,6 kWh por mês, em média nacional ou 2.143 kWh por ano (2,14 MWh/ano) ou aproximadamente 174 vezes o consumo médio residencial do brasileiro.
Naturalmente, defensores poderiam argumentar que uma mansão de mais de 900 metros quadrados jamais poderia ser comparada a uma residência comum. O argumento possui alguma validade. Casas maiores demandam mais energia. Entretanto, a questão central não é estatística; é ética.
O debate nunca foi sobre quantos quilowatts-hora Al Gore pode pagar. Trata-se da legitimidade moral de quem pede renúncias à sociedade enquanto preserva para si um padrão de consumo incompatível com as recomendações que dirige aos demais.
Essa contradição não constitui um problema exclusivamente pessoal. Ela revela uma característica recorrente da política contemporânea: a crescente separação entre os custos impostos à população e o modo de vida das elites que formulam essas exigências.
O fenômeno não se limita ao consumo residencial. Aviões particulares, grandes propriedades, conferências internacionais frequentadas por milhares de participantes transportados por via aérea e estilos de vida intensivos em carbono convivem com discursos que enfatizam contenção, austeridade energética e redução do consumo da população.
A consequência é previsível: a confiança pública se deteriora.
Políticas ambientais dependem menos de slogans do que de credibilidade. Quando os mensageiros aparentam não acreditar, em sua vida privada, nas restrições que defendem publicamente, abre-se espaço para o ceticismo. Não porque a ciência climática esteja necessariamente equivocada, mas porque a autoridade moral do discurso passa a ser questionada.
Os críticos de Gore também observam outro aspecto: a transformação da agenda climática em um gigantesco mercado financeiro. Ao longo dos anos, o ex-vice-presidente tornou-se um investidor altamente bem-sucedido em fundos, empresas e ativos relacionados à transição energética, acumulando uma fortuna estimada em centenas de milhões de dólares. Evidentemente, enriquecer não constitui crime nem desqualifica automaticamente suas ideias. Porém, quando interesses econômicos passam a coexistir com discursos alarmistas, torna-se legítimo perguntar onde termina a convicção e onde começa o incentivo financeiro.
Essa pergunta é particularmente relevante porque o medo sempre foi um poderoso instrumento político. Sociedades alarmadas aceitam mudanças profundas com menor resistência. Quanto maior a percepção de emergência, maior tende a ser a disposição para aceitar novos impostos, regulações, subsídios e mecanismos de controle econômico.
Não significa que toda preocupação ambiental seja infundada. Significa apenas que qualquer proposta de transformação social deve ser acompanhada do mesmo grau de transparência exigido dos cidadãos.
A coerência continua sendo um ativo insubstituível.
Quando líderes defendem austeridade energética enquanto desfrutam padrões extraordinários de consumo, não enfraquecem apenas sua imagem pessoal. Fragilizam a própria causa que afirmam representar.
Talvez a verdadeira “verdade inconveniente” não esteja nas emissões de carbono.
Talvez esteja na distância crescente entre aquilo que as elites recomendam e aquilo que realmente praticam.
E essa distância, mais do que qualquer tonelada adicional de CO₂, corrói silenciosamente a confiança indispensável para qualquer política pública de longo prazo.
Conclusões
O debate contemporâneo sobre as mudanças climáticas parece cada vez mais deslocar-se da ciência para a filosofia política. A questão deixou de ser apenas como reduzir emissões de gases de efeito estufa e passou a envolver outra pergunta, igualmente relevante: em nome da proteção do planeta, até onde estamos dispostos a limitar o conforto, a liberdade e o bem-estar das pessoas?
A climatização artificial ilustra esse dilema de forma particularmente expressiva. O ar-condicionado não elimina as causas do aquecimento urbano, não substitui cidades mais arborizadas, nem dispensa políticas de mitigação das emissões. Entretanto, constitui uma das mais importantes tecnologias de adaptação já desenvolvidas pela civilização para proteger vidas humanas diante de temperaturas extremas. Transformá-lo em símbolo de culpa ambiental significa inverter a finalidade do próprio desenvolvimento tecnológico.
O desafio não consiste em escolher entre mitigação ou adaptação: reduzir emissões busca limitar riscos futuros; adaptar cidades protege pessoas reais, que enfrentam ondas de calor cada vez mais frequentes no presente. Sacrificar uma dessas estratégias em favor da outra representa um falso dilema.
A legitimidade das políticas públicas depende tanto da consistência técnica quanto da coerência moral de seus formuladores. Quando cidadãos são chamados a renunciar ao conforto, à mobilidade ou ao consumo enquanto parcelas das elites políticas, econômicas e ativistas preservam padrões de vida intensivos em carbono, instala-se uma percepção de assimetria que fragiliza a confiança social. Sem confiança, mesmo políticas tecnicamente corretas encontram crescente resistência.
O risco de se adotar soluções que contradizem os próprios objetivos perseguidos está na metáfora de “destruir a vila para salvá-la” resumindo essa preocupação. Seja na exploração intensiva de florestas para produção de biomassa, seja na tentativa de restringir tecnologias de adaptação como o ar-condicionado, permanece a mesma indagação: quando os meios comprometem aquilo que se pretende preservar, ainda é possível afirmar que estamos protegendo o bem comum?
A verdadeira sustentabilidade não consista em exigir que a sociedade retorne a condições menos confortáveis ou menos seguras, mas em desenvolver soluções tecnológicas capazes de conciliar prosperidade, adaptação ambiental e proteção da vida humana. Civilização sempre significou ampliar a capacidade das pessoas de enfrentar as limitações impostas pela natureza, e não se resignar a elas.
Permanece uma reflexão que transcende o debate climático: antes de perguntar como salvar o planeta, talvez devamos perguntar por que desejamos salvá-lo. Se a resposta for preservar a vida humana, então políticas ambientais precisam ser avaliadas, antes de tudo, pela sua capacidade de proteger pessoas concretas, e não apenas indicadores ambientais ou metas estatísticas.
A adaptação, sobretudo quando alicerçada no desenvolvimento econômico, continua sendo o principal fator determinante dos resultados associados ao clima nas escalas de tempo e espaço que realmente influenciam a vida das pessoas. Nas últimas décadas, praticamente todas as regiões do mundo registraram avanços na produtividade agrícola, na prosperidade econômica e na redução da mortalidade causada por eventos climáticos. Esses progressos ocorreram apesar das mudanças climáticas, e não porque seus efeitos tenham desaparecido. O que explica essa evolução é o fato de que o desenvolvimento econômico, a inovação tecnológica, a ampliação da infraestrutura e a capacidade de adaptação avançaram em ritmo mais acelerado do que o crescimento dos impactos climáticos, conduzindo a sociedade a uma trajetória de maior resiliência e bem-estar.
Parafraseando John Paul Young, talvez o amor realmente continue no ar, mas, em um mundo cada vez mais urbano, artificial e sujeito a extremos climáticos, ele também pode estar — sem culpa — no ar-condicionado. Afinal, toda política ambiental que esquece as pessoas corre o risco de preservar o planeta enquanto perde de vista a própria razão de preservá-lo. “Love is in the air conditioning, everywhere I look around.” (“O amor está no ar-condicionado, por toda parte para onde eu olho.”). Se puder e quiser, desfrute sem culpa.
¹MORANO, Marc. Morano on TV: You can get A/C in Europe — but only after death! Disponível em:
https://www.cfact.org/2026/07/07/morano-on-tv-you-can-get-a-c-in-europe-but-only-after-death/. ²MCDONALD, Dan. Britons ordered to remove air conditioning from homes in 40C heat under Net
Zero crackdown. Disponível em: https://www.gbnews.com/news/air-conditioning-heatwave-remove-40cnet-zero.
³KENNEDY, Charles. Spain Initiates Energy Austerity With Air Conditioning Limits. Disponível em:
https://oilprice.com/Latest-Energy-News/World-News/Spain-Initiates-Energy-Austerity-With-AirConditioning-Limits.html.
4MENTON, Francis. In France, The Government Tries To Prevent The People From Getting Air
Conditioning. Disponível em: https://www.manhattancontrarian.com/blog/2026-6-29-in-france-thegovernment-tries-to-prevent-the-people-from-getting-air-conditioning.
5 Ibidem.
6 PIELKE, Roger Jr. Europe’s Deadly Aversion to Air Conditioning. Disponível em:
https://www.aei.org/articles/europes-deadly-aversion-to-air-conditioning/.
7 TrendAsia. At COP30: Hundreds of Jets, Thousands of Tons of Emissions Time for a Private Jet
Tax. Disponível em: https://trendasia.org/en/hundreds-of-jets-thousands-of-tons-of-emissions-time-for-aprivate-jet-tax/
8 JOHNSON, Drew. Al Gore’s Inconvenient Reality: The Former Vice President’s Home Energy Use
Surges up to 34 Times the National Average Despite Costly Green Renovations. Disponível em:
https://nationalcenter.org/ncppr/2017/08/01/al-gores-inconvenient-reality-the-former-vice-presidents-homeenergy-use-surges-up-to-34-times-the-national-average-despite-costly-green-renovations-by-drew-johnso/.
Enio Fonseca – Engenheiro Florestal, Senior Advisor em questões socioambientais, Especialização em Proteção Florestal pelo NARTC e CONAF-Chile, em Engenharia Ambiental pelo IETEC-MG, em Liderança em Gestão pela FDC, em Educação Ambiental pela UNB, MBA em Gestão de Florestas pelo IBAPE, em Gestão Empresarial pela FGV, Conselheiro do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico, FMASE, foi Superintendente do IBAMA em MG, Superintendente de Gestão Ambiental do Grupo Cemig, Chefe do Departamento de Fiscalização e Controle Florestal do IEF, Conselheiro no Conselho de Política Ambiental do Estado de MG, Ex Presidente FMASE, founder da PACK OF WOLVES Assessoria Ambiental, foi Gestor de Sustentabilidade Associação Mineradores de Ferro do Brasil e Diretor Meio Ambiente e Relações Institucionais da SAM Metais. Foi Diretor de Responsabilidade Social e Ambiental da ALAGRO. Membro do Ibrades, Abdem, Adimin, Sucesu, CEMA e CEP&G/ FIEMG. Foi Conselheiro do Instituto AME e articulista do Canal direitoambiental.com.
Linkedin Enio Fonseca
Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico – FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance. Autor de 27 e-books e coautor de 28 e-books. Articulista do Canal direitoambiental.com.
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