sábado , 18 abril 2026
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O Irã e a Guerra da Descarbonização

Por Enio Fonseca e Decio Michellis
“O mundo moderno não é movido pela virtude. É movido por moléculas — petróleo, gás natural, carvão — e, cada vez mais, por nações dispostas a garanti-las.” (Todd Royal)

A energia renovável representou 85,6% de toda a nova capacidade energética instalada no mundo no ano passado, de acordo com um relatório () divulgado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), um órgão da ONU. A ONU/IRENA acreditam que os países terão um incentivo com o conflito no Oriente Médio expondo a dependência do fornecimento global de petróleo e gás em relação a certos pontos estratégicos, incluindo o Estreito de Ormuz. Isto afetou cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e gás aos mercados globais, expondo a fragilidade do sistema energético global. Nesta visão, “Um sistema energético mais descentralizado, com uma participação crescente de energias renováveis ​​e mais agentes de mercado, é estruturalmente mais resiliente”, afirmou Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, em comunicado. “Os países que investiram na transição energética estão a atravessar esta crise com menos danos econômicos, ao mesmo tempo que reforçam a segurança energética, a resiliência e a competitividade.”

Mas alguns entraves permanecem em detrimento da eletrificação com energias renováveis:

  • As energias eólica e solar continuam limitadas pelas condições climáticas, com capacidade reduzida quando o sol se põe ou o vento cessa. A tecnologia de baterias (armazenamento de energia – inadequada para fornecimento de energia de reserva a longo prazo) está avançando, mas a quantidade instalada representa uma pequena parcela necessária para fixar estas fontes energéticas não despacháveis.
  • Países com uma grande participação de energias eólica e solar ​​em sua matriz elétrica ainda podem sofrer com altos custos de eletricidade.
  • A confiabilidade das energias eólica e solar ​​também são limitadas por suas cadeias de suprimentos. Os componentes críticos usados ​​na fabricação de painéis solares, nas turbinas eólicas e nas baterias apresentam pouca flexibilidade e estão substituindo a dependência de petróleo pela dependência chinesa no fornecimento de equipamentos, componentes, peças de reposição, materiais e processos de fabricação. Portanto se trata de dependências centralizadas. Se a China priorizar seu mercado interno ou usar sua posição nas negociações comerciais, o mercado de energias renováveis ​​está(rá) em risco. A China eliminou os incentivos à exportação de painéis solares, o que implica no aumento dos custos da infraestrutura de energia solar no mundo. Estamos tentando construir nosso futuro sistema energético com base em cadeias de suprimentos que não controlamos.
  • Não existe uma cadeia de suprimentos “pós-combustíveis fósseis”: painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos nascem de combustíveis fósseis. Mineração, refino, manufatura, transporte são consumidores intensivos hidrocarbonetos e petroquímicos.
  • Os pontos de estrangulamento nas cadeias de suprimento com o fechamento do Estreito Ormuz são problemas geopolíticos. A história mostrou como essas ameaças são resolvidas na maioria das vezes militarmente. A Segunda Guerra Mundial foi vencida por meio do uso da força e mobilização industrial impulsionada por hidrocarbonetos e não por meio de negociações sobre cadeias de suprimentos.
  • Países mais pobres estão com dificuldades de avançar na eletrificação e na eletromobilidade. Embora os custos de implantação de energia eólica e solar estejam em queda, os custos indiretos necessários para tornar estas energias “firmes” são altos: investimentos adicionais em baterias (BESS) e ou hidrelétricas reversíveis, compensadores síncronos para estabilizar a rede elétrica (agora é necessário investir em robustez e resiliência do sistema) e reforços na transmissão de longa distância. Estes investimentos complementares e indispensáveis podem multiplicar o custo da eletricidade gerada por energia eólica e solar por dez ou mais.
  • Sensação de irrealidade econômica com custos crescentes da energia, mesmo considerando o paradigma da transição energética de que as energias renováveis são “baratas, limpas e seguras” de ser mais competitiva que as formas de geração convencional. Além de não ser barata, não é competitiva economicamente, os equipamentos necessários não são produzidos internamente (dependência de importação) e não é segura (não despachável e, portanto, não confiável). Observar a realidade termodinâmica e econômica está mudando alguma coisa?

A guerra não significa que as energias renováveis ​​substituirão o petróleo.

A pergunta que não quer calar analisando a figura acima é: se as energias renováveis ​​são evidentemente o nosso futuro, como irão preencher a lacuna e contribuir para aumentos massivos na produção global de energia, se o petróleo, o gás natural e o carvão forem removidos do nosso panorama energético?

A guerra no Irã alimenta um novo impulso ao princípio de uma nova urgência climática, mas os números acima mostram que as energias renováveis ​​ainda não conseguem substituir a energia que impulsiona a civilização moderna.

O mapa do caminho para abandono do petróleo parece ser um exercício clássico de ambiguidade – também conhecido como tudo de bom, contra tudo de ruim – que é exatamente o que pode ser necessário para interromper o consumo de recursos naturais não renováveis (petróleo, gás natural e o carvão mineral). É importante enfatizar que não devemos esperar que alguém encontre uma solução mágica que resolva imediatamente a transição energética justa a caminho da emissão zero (Net Zero).

O uso de combustíveis fósseis e dos produtos petroquímicos é a espinha dorsal de todas essas partes da vida, faz sentido dizer que é “altamente improvável” que uma eliminação gradual de combustíveis fósseis seja apoiada quando os consumidores e contribuintes perceberem o impacto no dia a dia. As energias renováveis (eólica, solar etc.) apenas geram eletricidade, enquanto o petróleo é base de muitos dos produtos de categoria essencial à sociedade atual. Com a tecnologia presente é impossível viver sem os mais de 6.000 produtos derivados de petróleo, que são a base dos nossos estilos de vida e da nossa economia. São fundamentais, por exemplo, em medicamentos, equipamentos médicos, vacinas, embalagens de alimentos frescos e congelados (só para citar algumas aplicações). Precisamos deles para alimentar veículos, geradores, fornos e fábricas, incluindo painéis solares, turbinas eólicas, transformadores, baterias e componentes de veículos elétricos.

A geração de eletricidade a partir de energia eólica, solar, hidrelétrica, carvão, gás natural e nuclear, eólica e solar são todos construídos com produtos, componentes e equipamentos feitos de derivadas de petróleo bruto. Os veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas também são construídos com produtos, componentes e equipamentos feitos a partir do petróleo bruto. Eletroeletrônicos que precisam de eletricidade para funcionar, como smartphones, computadores, data centers e máquinas de raio-X, são feitos com petroquímicos fabricados a partir de petróleo bruto. Sem combustíveis fósseis, não haveria nada que precisasse de eletricidade.

Mas ainda não temos um plano reserva para substituir produtos derivados do petróleo, em qualidade, disponibilidade e preço. Tentar substituir todos os subprodutos de combustível fóssil por biomateriais será impossível no curto prazo e extremamente difícil no longo prazo.

Liderem pelo exemplo: suspendam o uso dos combustíveis fósseis, seus derivados e produtos petroquímicos a partir de hoje (são mais de 6.000 produtos derivados de petróleo, que são a base dos nossos estilos de vida e da nossa economia tais como medicamentos, equipamentos médicos, vacinas, embalagens de alimentos frescos e congelados, smartphones, computadores, data centers e máquinas de raio-X veículos, geradores, painéis solares, turbinas eólicas, transformadores, baterias veículos elétricos todos fabricados ou construídos com produtos, componentes e equipamentos feitos de derivadas de petróleo bruto). E de quebra não precisará de energia elétrica, reduzindo o aquecimento global.

Sem petróleo, sem civilização moderna. Imagine; sem smartphones para ler códigos QR, todas as identidades (IDs) e senhas perdidas, registros bancários perdidos e com ele “seu” dinheiro”. Sem gasolina ou bombas de gasolina em funcionamento. Ser capaz de atravessar a estrada sem indicadores de trânsito ou ser atropelado. Sem aquecimento, comer ou se encontrar. Sendo reduzido a falar apenas com aqueles que estão a uma curta distância. Ir para a cama quando está escuro e levantar ao amanhecer.

A civilização moderna é muitas vezes chamada de “civilização do petróleo” porque grande parte da nossa economia, tecnologia e estilo de vida depende direta ou indiretamente desse recurso energético. O petróleo concentra muita energia em pouco volume. Isso o tornou ideal para transporte e para a indústria. Grande parte do sistema de mobilidade mundial depende de derivados de petróleo. Sem petróleo barato, o sistema logístico global seria muito menor e mais lento.

Apesar da transição energética em curso, o petróleo continuará importante até 2050 ou mais. Isso acontece porque vários setores da economia são difíceis de eletrificar rapidamente.

Alguns meios de transporte pesado exigem combustíveis com alta densidade energética, algo que as baterias ainda não conseguem substituir facilmente, tais como aviação comercial, transporte marítimo, transporte rodoviário de longa distância com caminhões e maquinaria pesada.

Mesmo que o uso de petróleo como combustível diminua, o uso como matéria-prima industrial pode continuar forte. A petroquímica será uma das maiores fontes de crescimento da procura de petróleo nas próximas décadas.

Refinarias, oleodutos e frotas de veículos têm vida útil longa. Uma refinaria moderna pode operar 30 a 50 anos. Organizações como a Agência Internacional de Energia destacam que a transição energética é gradual, não instantânea.
Algumas tecnologias alternativas ainda estão em desenvolvimento e ainda precisam de escala global (competitividade, qualidade, quantidade e preço): combustíveis sintéticos, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação. Essas soluções ainda são mais caras que o os derivados do petróleo.
O sistema energético mundial é enorme e leva décadas para mudar. A medida que as energias renováveis começarem a atender a uma parcela maior das necessidades energéticas mundiais, os impactos ambientais negativos rivalizarão ou superarão tudo o que já vimos com o petróleo, o carvão ou o gás natural. Os sistemas energéticos, entre eles a cadeia produtiva do setor de óleo e gás, não são escolhas de estilo de vida opcionais.

Recomendamos a leitura do artigo de nossa autoria: “Parem com o petróleo! A transição energética acelera?” disponível em: https://direitoambiental.com/parem-com-o-petroleo-a-transicao-energetica-acelera/ para melhor compreensão do tema.

IEA: opções para aliviar a pressão sobre os preços do petróleo

A Agência Internacional de Energia (IEA) apresentou opções () para aliviar a pressão sobre os preços do petróleo para os consumidores em resposta às interrupções no fornecimento no Oriente Médio com o conflito do Irã:
A AIE também publicou uma visão geral de todas as medidas políticas () relacionadas à demanda que foram anunciadas pelos governos desde o início da crise. Isso mostra que muitos países já estão agindo para proteger os consumidores por meio de medidas de conservação e financeiras semelhantes às discutidas no relatório.

Medidas imediatas para reduzir a demanda:

  • Trabalhar em casa sempre que possível: isso reduz o consumo de petróleo com deslocamentos diários, principalmente em trabalhos que permitem o trabalho remoto.
  • Reduzir os limites de velocidade nas rodovias em pelo menos 10 km/h: velocidades mais baixas reduzem o consumo de combustível de carros de passeio, vans e caminhões.
  • Incentivar o transporte público: uma mudança dos carros particulares para ônibus e trens pode reduzir rapidamente a demanda por petróleo.
  • Alternar o acesso de carros particulares às vias públicas em grandes cidades em dias diferentes: os sistemas de rodízio de placas podem reduzir o congestionamento e o consumo excessivo de combustível.
  • Aumentar o compartilhamento de carros e adotar práticas de direção eficientes: maior ocupação dos veículos e condução ecológica podem reduzir o consumo de combustível rapidamente.
  • Condução eficiente para veículos comerciais rodoviários e entrega de mercadorias: melhores práticas de condução, manutenção de veículos e otimização de carga podem reduzir o consumo de diesel.
  • Desviar o uso de GLP do transporte: a conversão de veículos bicombustíveis e convertidos de GLP para gasolina pode preservar o GLP para cozinhar e atender a outras necessidades essenciais.
  • Evite viagens aéreas sempre que existirem alternativas: reduzir os voos a negócios pode aliviar rapidamente a pressão sobre o mercado de combustível de aviação.
  • Sempre que possível, opte por outras soluções modernas para cozinhar: Incentivar o uso de fogões elétricos e outras opções modernas pode reduzir a dependência do GLP.
  • Aproveitar a flexibilidade das matérias-primas petroquímicas e implementar medidas de eficiência e manutenção de curto prazo: a indústria pode ajudar a liberar GLP para usos essenciais, reduzindo o consumo de petróleo por meio de melhorias operacionais rápidas.

Embora as medidas do lado da demanda destacadas no relatório não consigam suprir a escala da interrupção do fornecimento, elas podem desempenhar um papel significativo na redução dos custos para os consumidores, na diminuição das tensões nos mercados e na preservação de combustíveis para usos essenciais até que os fluxos normais sejam retomados.

As diretrizes da AIE para a redução do consumo de combustível podem ser classificadas como “agenda climática”. Medidas do lado da demanda seria um eufemismo para racionamento. A guerra no Irã estaria sendo tratada como se fosse uma versão do Green New Deal. A cada destruição da infraestrutura energética existente seria uma oportunidade para restaurar o Green New Deal em relação às emissões líquidas zero e à COVID, com ordens de confinamento. Esta guerra com o Irã seria uma “assassina dos combustíveis fósseis” e uma oportunidade para nos livrarmos dos combustíveis fósseis. A conferir sobre a eficiência, eficácia e efetividade das medidas propostas, bem como o quanto nos livrarmos dos combustíveis fósseis.

Coincidentemente o governo alemão permitiu o descomissionamento de redes de gás por meio de uma emenda à Lei da Indústria de Energia (), alinhado com o plano de transição energética da Alemanha para alcançar a neutralidade climática até 2045. As operadoras da rede de gás agora poderão desativar suas linhas caso não vejam mais nelas um uso sustentável para o clima, podendo desconectar os consumidores da rede de gás após apenas cinco anos. Biometano, hidrogênio ou gases sintéticos como usos alternativos estão sendo considerados. O maior risco para os consumidores residenciais está nos prazos curtos e custos elevados de conversão.

Apagões e Transição Energética

Apagões de até uma semana (cada vez mais frequentes [???] em cidades como São Paulo), nos ajudam a definir nossas prioridades, nos tirando da nossa zona de conforto e nos lembra por que a civilização moderna é algo tão bom. Igualmente eles ratificam a importância da autossuficiência e nos lembram que a complacência não é algo bom quando flerta com crise econômica, perda de confiabilidade (precisamos do dobro da capacidade de geração e do dobro da capacidade da rede para produzir a mesma quantidade de energia (???), risco de sobrevivência e falta de segurança energética.

Difamar o sistema energético da era moderna se tornou um hobby para muitas pessoas. A maioria delas nunca experimentou a ausência desse sistema, exceto por escolha própria. Porém é muito diferente escolher privar-se de algo de uma privação imposta por forças externas.

A perda do nosso domínio da energia significa destruir nossas fontes de riqueza e arruinar tudo aquilo de que depende nossa prosperidade pela lenta corrosão interna da razão e da vontade. Se um país não consegue gerar sua própria energia não consegue se governar.

“Justiça social = petróleo e gás.” (Robert Bradley Jr.)

Para alguns saudosistas, merece ser lembrado o Plano GOELRO (Gosudarstvennaya Komissiya po Elektrifikatsii Rossii). Lançado em 1920, logo após a Revolução Russa, sob a liderança de Vladimir Lenin, tinha como objetivo: i) Construir usinas elétricas por todo o país; ii) Modernizar a indústria; iii) Integrar economicamente as regiões e iv) Levar desenvolvimento tecnológico ao campo. Lenin resumiu a importância do projeto com a famosa frase: “O comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país.” Não há necessidade de qualquer simpatia com o comunismo para compreender que a autossuficiência energética é elemento chave para a governabilidade e prosperidade nacional.

A infraestrutura energética é a base do desenvolvimento. A eletrificação mostrou que crescimento econômico depende de investimentos pesados em infraestrutura básica. Energia barata e disponível: impulsiona a indústria, melhora a produtividade e integra regiões isoladas. Sem infraestrutura, o resto da economia não anda.

Assim como o Plano GOELRO focava em criar infraestrutura elétrica do zero e industrializar o país após a Revolução Russa, a transição energética atual procura transformar a base energética de uma economia inteira, substituir fontes fósseis por renováveis para combater a Mudança Climática. Esforço global de políticas públicas como o Acordo de Paris, procuram aliar desenvolvimento econômico + sustentabilidade. A transição atual tenta provar que ela pode salvar o planeta sem travar a economia, exigindo muito mais capital e cooperação financeira para sua materialidade. Porém, a incerteza tecnológica é muito maior: algumas tecnologias alternativas ainda estão em desenvolvimento e ainda precisam de escala global (competitividade, qualidade, quantidade e preço) como combustíveis sintéticos, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação. Essas soluções ainda são mais caras que o os derivados do petróleo. Muita da tecnologia necessária ainda não existe (ou certamente não na forma comercial).

Existe a convicção que tecnologias eólicas, solares e de baterias “limpas” chegarão magicamente assim que a era do carvão, petróleo e gás terminar – e não envolverão mineração e processamento; poluição tóxica; trabalho infantil e escravo para a extração de cobalto no Congo; trabalho forçado para a produção de painéis solares; mineração de terras raras em um ambiente tóxico na Mongólia Interior; privação do direito à água de povos nativos no Chile e na Bolívia para a produção de lítio; destruição de florestas tropicais e recifes de coral na Indonésia para a mineração de níquel e destruição ecológica causada pela cobertura de vastas áreas com instalações eólicas, solares e de transmissão. Seria preciso ignorar as doenças e mortes causadas por apagões, a redução do padrão de vida e os serviços médicos que inevitavelmente acompanham essa energia não confiável.

Desenvolver novas tecnologias de baixo carbono requer investimento em intangíveis, como pesquisa, desenvolvimento e design. Esses investimentos têm grandes repercussões, o que significa que o risco pode ser enorme e os ganhos mínimos. Pode ser necessário financiamento público. Com frequência surgem novas demandas para que o Estado ofereça mais apoio à indústria (impulsos protecionistas – uma mistura de subsídios, concessões e incentivos fiscais) para tornar o Brasil um líder mundial em energia verde. Essa crescente relação simbiótica entre o governo e as empresas está criando uma geração de viciados em subsídios. Estamos em uma era de altas tarifas e subsídios, com governos intervencionistas ansiosos demais para apoiar certos negócios sustentados às custas do contribuinte.

Todos os incentivos fiscais, renúncias de receita e juros subsidiados implicam no aumento da dívida pública e na necessidade de captação de recursos públicos adicionais. Considerando a inelasticidade das despesas públicas, ou seja, quando a redução da arrecadação, os gastos públicos não diminuem (apenas 4 % do Orçamento Geral da União é composto por despesas discricionárias, as demais são compulsórias ou não gerenciáveis).

No Brasil, isenção fiscal é a dispensa de tributo por meio de lei, realizada pelo ente federativo competente para instituí-lo. Não há efetivação do lançamento tributário, embora ocorra o fato gerador e consequentemente se instaure a obrigação tributária.

Além do custo direto da renúncia fiscal, existe o custo de transação (custos de elaboração e negociação dos contratos, mensuração e fiscalização, monitoramento do desempenho, organização de atividades administrativas etc.).

Estes incentivos são geralmente apresentados na forma de empréstimos com juros subsidiados abaixo dos valores de mercado, isenções, subsídios, reduções tributárias entre outras atividades e ações continuadas.

Políticas econômicas regionais (subsídios, concessões e incentivos fiscais a serem pagos pelo contribuinte) influenciarão significativamente decisões do mercado.

“Siga os subsídios” é uma das quatro recomendações do Boston Consulting Group (BCG) em seu estudo sobre a construção de uma economia para o hidrogênio verde, produzido a partir da eletrólise com eletricidade renovável. () Incentivos monetários (subsídios, concessões e incentivos fiscais a serem pagos pelo contribuinte) limitarão os riscos do setor privado/empreendedores para projetos complexos, arriscados e demorados.

A abordagem dirigista na transição energética é altamente ineficiente:

  • Estamos vendo interrupções no fornecimento em partes dos EUA. Não deu certo na Califórnia, no Texas, Reino, na Alemanha, na Austrália etc. A economia da Alemanha – o motor da União Europeia – entrou oficialmente em recessão em grande parte devido ao aumento dos preços da energia. A atual crise de abastecimento revelou uma demanda global surpreendente por hidrocarbonetos. A transição energética está em transição – para a segurança energética. A transição energética está retrocedendo nos EUA, país que representa um quarto da economia mundial. A UE busca ação coordenada em meio a temores de interrupção prolongada no fornecimento de energia (desde o início do conflito com o Irã, os preços na UE subiram cerca de 70% para o gás natural e 60% para o petróleo, aumentando o custo das importações de combustíveis fósseis da UE em 14 bilhões de euros nos primeiros 30 dias). A Comissão Europeia apelou aos Estados-Membros para que se abstivessem de tomar medidas que pudessem restringir o livre fluxo de produtos petrolíferos ou desincentivar a produção das refinarias.
  • O dirigismo é um método que garante grande desperdício, ineficiência, clientelismo e declínio econômico, cujos custos serão arcados pelo contribuinte. Assim, precisamos repensar os métodos e, quase certamente, o cronograma.
  • A política está muito contaminada pela opinião pública. As “fakes news” dominam (mais retórica que um fato, não se está discutindo com a razão, mas não raro com a ignorância e a perversidade). É algo como incendiar o apartamento para matar a barata. Matar a vaca para acabar com o carrapato.
  • Os legisladores, que são formadores de políticas públicas, quase sempre desconhecem o tema sobre o qual estão legislando. Estamos recheados de políticas equivocadas e oportunidades perdidas.
  • Quanto mais fortes forem os intensos ataques da mídia tradicional a um tema acalentado e vulnerável – maior a indicação que este tema seja valioso e vulnerável. Ao se aproximar o do alvo, se intensifica a maioria das críticas para vencer a guerra pelos corações e mentes temendo a controvérsia que inevitavelmente resultaria.
  • Investir em pesquisa e experimentação científica básica (inclui os investimentos compulsórios de P&D), aproveitando os avanços tecnológicos. Isso não requer um reinvestimento maciço na produção de nova energia de valor duvidoso. O governo pode parar de adivinhar sobre os futuros vencedores e apoiar o investimento em tecnologias que já existem e oferecer a melhor, mais rápida e confiável maneira de reduzir as emissões rapidamente;
  • Deixar o mercado resolver a melhor forma de atingir o objetivo da política, seja qual for sua definição e exigência. A maioria das regras tem como propósito na formulação de políticas públicas é domesticar os mercados, não os liberar. Impõe-se por compulsão, em vez de permitir a livre escolha. Quantos consumidores escolheriam livremente biodiesel em vez de diesel convencional, ou gasolina pura x adicionada de etanol?
  • Precisamos de muita cautela na transição energética. Equilíbrio entre segurança de abastecimento, preço e descarbonização. Não ao suicídio econômico. A sorte se encontra na prudência e o azar na precipitação. Nossas vantagens comparativas raramente se transformam em vantagens competitivas: Apesar de sermos uma economia de baixo carbono isto não significa nenhuma vantagem para exportar os produtos brasileiros. Devemos correr, mas devagar.
  • O desafio permanece, de reunir na mesma frase estes três quesitos: uma fonte comprovadamente limpa, energeticamente eficiente e de baixo custo.

 

Ocorre que a transição energética pode nos tornar mais pobres. O impacto dos subsídios “necessários” ao nos privar voluntariamente de tecnologias bem estabelecidas, apenas para substituir infraestrutura existente por outra de baixo carbono ou Net Zero. As leis Net Zero estão parecendo uma forma de auto sacrifício econômico.

Livrar‐se do petróleo e do gás em busca de emissões líquidas zero até 2050 impactaria seriamente os padrões de vida das pessoas no Brasil e globalmente.

Conclusões

A guerra com o Irã pode acelerar a transição energética, à medida que os países buscam fontes de energia “estruturalmente mais resilientes”, afirma a ONU. A guerra não significa que as energias renováveis substituirão o petróleo. A guerra no Irã alimenta um novo impulso ao princípio de uma nova urgência climática, mas os números mostram que as energias renováveis ainda não conseguem substituir a energia que impulsiona a civilização moderna. O sistema energético mundial é enorme e leva décadas para mudar. A medida que as energias renováveis começarem a atender a uma parcela maior das necessidades energéticas mundiais, os impactos ambientais negativos rivalizarão ou superarão tudo o que já vimos com o petróleo, o carvão ou o gás natural. Os sistemas energéticos, entre eles a cadeia produtiva do setor de óleo e gás, não são escolhas de estilo de vida opcionais.

A transição atual tenta provar que ela pode salvar o planeta sem travar a economia, exigindo muito mais capital e cooperação financeira para sua materialidade. Porém, a incerteza tecnológica é muito maior: algumas tecnologias alternativas ainda estão em desenvolvimento e ainda precisam de escala global (competitividade, qualidade, quantidade e preço) como combustíveis sintéticos, hidrogênio verde, combustíveis sustentáveis para aviação. Essas soluções ainda são mais caras que o os derivados do petróleo. Muita da tecnologia necessária ainda não existe (ou certamente não na forma comercial).

Países mais pobres estão com dificuldades de avançar na eletrificação e na eletromobilidade. Embora os custos de implantação de energia eólica e solar estejam em queda, os custos indiretos necessários para tornar estas energias “firmes” são altos: investimentos adicionais em baterias e ou hidrelétricas reversíveis, compensadores síncronos para estabilizar a rede elétrica (agora é necessário investir em robustez e resiliência do sistema) e reforços na transmissão de longa distância. Estes investimentos complementares e indispensáveis podem multiplicar o custo da eletricidade gerada por energia eólica e solar por dez ou mais.

Nestes tempos incertos, as consequências de um desastre de segurança nacional associadas à insegurança energética podem ser verdadeiramente trágicas. Confiabilidade energética se tornou uma questão de vida ou morte. A energia é vida, e a sua falta acarreta desastres e morte em circunstâncias como condições climáticas extremas, desastres naturais ou eventos de segurança nacional como a guerra com o Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz. Energia acessível, confiável e limpa é o motor por trás da redução de preços e do crescimento que impulsiona a qualidade de vida, segurança e saúde em nossa casa, no trabalho e na economia em geral.

Na busca de alternativas de aliviar a crise do custo de vida, reativar a produtividade, restaurar o crescimento e sanear as finanças, nenhum desses objetivos poderá ser alcançado enquanto a energia permanecer cara e insegura.

Segurança energética se conquista por meio da produção, do controle e da redundância, operando com base em densidade de energia e confiabilidade:

  • Expansão da produção de petróleo, gás natural e capacidade de refino (crucial para o Brasil) e petroquímica;
  • Expansão da produção de biocombustíveis, com destaque para o biogás e biometano (lembrando que já existem mais de 1 milhão de km2 de plantações de biocombustíveis no mundo, onde a área total de terras aráveis ​​soma apenas 15 milhões de km2);
  • Relocalização das cadeias de suprimentos críticas;
  • Investir em materiais, metalurgia e capacidade industrial;
  • Expansão da hidroeletricidade do potencial remanescente; e
  • Ampliação da capacidade de energia nuclear.
  • Precisamos de Segurança Energética Acessível, Confiável e Limpa! É a base da sobrevivência nacional!

 

Enio Fonseca – Engenheiro Florestal, Senior Advisor em questões socioambientais, Especialização em Proteção Florestal pelo NARTC e CONAF-Chile, em Engenharia Ambiental pelo IETEC-MG, em Liderança em Gestão pela FDC, em Educação Ambiental pela UNB, MBA em Gestão de Florestas pelo IBAPE, em Gestão Empresarial pela FGV, Conselheiro do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico, FMASE, foi Superintendente do IBAMA em MG, Superintendente de Gestão Ambiental do Grupo Cemig, Chefe do Departamento de Fiscalização e Controle Florestal do IEF, Conselheiro no Conselho de Política Ambiental do Estado de MG, Ex Presidente FMASE, founder da PACK OF WOLVES Assessoria Ambiental, foi Gestor de Sustentabilidade Associação Mineradores de Ferro do Brasil e Diretor Meio Ambiente e Relações Institucionais da SAM Metais. Membro do Ibrades, Abdem, Adimin, Alagro, Sucesu, CEMA e CEP&G/ FIEMG e articulista do Canal direitoambiental.com.

Linkedin Enio Fonseca

Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico – FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance.

Linkedin Décio Michellis Jr                

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