quarta-feira , 22 maio 2024
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Green Hushing: do que você quer se arrepender? (Silêncio Verde em ESG)

Por Decio Michellis Jr.

“Se te casas, arrependes-te;
se não te casa, arrependes-te, também;
cases-te ou não te cases, arrependes-te sempre;
chora sobre elas, e arrependes-te também;
ri-te das loucuras do mundo ou chora sobre elas,
e de ambas as coisas te arrependes;
quer te rias das loucuras do mundo,
quer chores sobre elas irás sempre arrepender-te
Acredita numa mulher, e irás arrepender-te,
não acredites nela e arrependes-te também;
acredites ou não numa mulher, arrependes-te de ambas as coisas
Enforca-te, arrependes-te;
não te enforques, e na mesma te arrependes;
É esta, meus senhores, a quintessência de toda a sabedoria da vida” (Søren Aabye Kierkegaard, em “Ou Isso, Ou Aquilo: Um Fragmento de Vida”, 1843).

Søren Aabye Kierkegaard (1813–1855) foi um filósofo, teólogo, poeta e crítico social dinamarquês, considerado o primeiro filósofo existencialista.

Os questionamentos que faz e os problemas que enfrenta, de livre arbítrio, ansiedade, absurdo, autenticidade e busca de sentido, são os mesmos que todos enfrentamos em nossas vidas diárias. E devemos fazer escolhas. Não escolher é também uma opção, mas geralmente pode ser ruim. Kierkegaard afirmou que a angústia é o cerne da existência humana. Ela é a disposição do espírito diante da liberdade de escolhas.

ESG

“A governança ambiental, social e corporativa (ESG – do inglês Environmental, Social, and Corporate Governance) é uma estrutura projetada para ser incorporada à estratégia de uma organização que considera as necessidades e formas de gerar valor para todas as partes interessadas da organização (como funcionários, clientes e fornecedores e financiadores)” (Wikipedia). Em tese permitiria avaliar os riscos e oportunidades materiais (avaliação de valor) relacionados à sustentabilidade (em relação a todas as partes interessadas) relevantes para uma empresa ou organização com maiores retornos ajustados ao risco de longo prazo. Inclui entre outras, as seguintes dimensões:

  • Ambiental: foco nas mudanças climáticas, emissões de gases de efeito estufa – GEE, redução da biodiversidade, desmatamento, poluição, eficiência energética e gestão da água.
  • Social: condições de trabalho, segurança e saúde dos colaboradores, diversidade, equidade e inclusão, resultados no aumento da satisfação do cliente e comprometimento dos funcionários.
  • Governança: combate à corrupção, diversidade, privacidade, remuneração executiva, segurança cibernética e governança corporativa.

Os profissionais de sustentabilidade e ESG acreditam no trabalho que realizam e procuram fazer deste mundo um lugar melhor para se viver. As estruturas ESG/Sustentabilidade podem ajudar as empresas a evitar vários riscos reputacionais, políticos e até financeiros, impulsionando valores de longo prazo para o acionista. “Qualquer um que deseja que o mundo seja um lugar melhor, deve conseguir pensar como um economista” (Diane Coyle).

Paradoxalmente estamos vivendo numa “ordem baseada na realidade” apresentada como oposição à “ordem baseada em regras”. As soluções nem sempre emergem do estudo criterioso da realidade discernível. Um número crescente de empresas (inclusive no Brasil) está se libertando dos benefícios irrelevantes e inoportunos das práticas do:

  • Bluewashing: marketing enganoso exagerando o compromisso de uma empresa com práticas sociais responsáveis, tem um foco maior em fatores econômicos e sociais (escondendo o dano social que suas políticas causaram). A desinformação ativa é utilizada para tornar produtos ou serviços mais atraentes para os consumidores e para os acionistas.
  • Greenwashing (uma demão de verde): uma forma de publicidade ou marketing em que o verde é usado ​​enganosamente para persuadir os consumidores de que a empresa produtos, objetivos e políticas são ecologicamente corretos.
  • Climatewashing: exagero ou deturpação as credenciais climáticas por meio de publicidade, marca, rotulagem ou relatórios que não correspondem à realidade. O marketing corporativo e as campanhas governamentais que prometem “emissões líquidas zero até 2050” não são apoiadas por um plano confiável. Igualmente para produtos que são promovidos como “neutros em carbono” ou “amigos do clima” quando não o são. Também inclui bancos e investidores que afirmam financiar um “futuro mais limpo” quando isso não é necessariamente verdade. Fraudadores de créditos de carbono ou de fontes duvidosas idem. Enfim todos aqueles infratores que capitalizam a ansiedade climática. Estão oferecendo aos sinalizadores de virtude uma oportunidade de economizar dinheiro. Sinalização de virtude com preço reduzido, of course.
  • Socialwashing: a tradicional filantropia empresarial travestida de responsabilidade social podendo incluir incentivos fiscais, mecenato, doações e ou participação em programas sociais.

Green Hushing (Silêncio Verde)

O que é?

Green Hushing é quando uma empresa adota uma abordagem de silêncio para metas socioambientais e de sustentabilidade. Refere-se a subnotificação ou subcomunicação de práticas sustentáveis. É a escolha do ‘eco silêncio’ como estratégia de comunicação. Não falar sobre seus compromissos com a sustentabilidade para evitar ser penalizada por não os abordar ou abordá-los tarde demais. Evitar alegações de greenwashing e protestos bem com ações judiciais.

Algumas empresas até estabeleceram para si mesmas metas líquidas zero. Porém elas simplesmente não os estão divulgando, nem têm planos de fazê-lo. Se forem perguntadas sobre suas metas climáticas, elas se recusam a responder. Se ninguém perguntar, elas não fazem nada.

A tendência, vem se espalhando entre as empresas, apesar das melhorias em seus compromissos climáticos, de acordo com sua pesquisa de 2022da South Pole. Veja o interessante relatório “Net Zero and Beyond” elaborado pela South Pole disponível clicando aqui. 

Causas

Possíveis causas para o Green Hushing:

  • ESG ainda seja um campo incipiente e confuso que estas empresas não têm vontade de entrar nele publicamente.
  • Acreditam que há pouco valor e muitos riscos em serem verdadeiramente abertas sobre suas metas de sustentabilidade e climáticas. Mesmo que tenham confiança nesses objetivos, não querem se gabar deles por medo de que haja algo que possam estar omitindo ou exagerando sem saber.
  • “Todas as divulgações (de sustentabilidade) até agora foram voluntárias. As marcas estão definindo metas voluntárias, avaliando-as e criando iniciativas voluntárias de várias partes interessadas ou esquemas de certificação, que também são administrados em grande parte pela própria indústria” (George Harding Rolls). Isso levou a uma lavagem verde em grande escala.
  • O ciclo é principalmente baseado no medo. Medo de reação dos consumidores ou outras partes interessadas. Evitar qualquer atenção negativa.
  • Número crescente de ações judiciais por grupos ambientalistas alegando que as declarações feitas por empresas sobre serem “limpas”, “verdes” ou “sustentáveis” são enganosas.
  • O aumento do litígio climático está se tornando cada vez mais preocupante.
  • “As empresas não sabem o que fazer. Eles não querem ser chamados por fazer a coisa errada, então eles não fazem nada e ficam quietos sobre isso.” (Stuart Ahulm)
  • Os governos não fornecem às empresas um roteiro claro e acionável em direção à sustentabilidade e melhoria ambiental.

Riscos

Os principais riscos associados ao Green Hushing são:

  • O silêncio verde pode colocar as empresas em desacordo com seus objetivos ESG e em desacordo com seus stakeholders, incluindo investidores.
  • Levar à paralisia da análise, à medida que as empresas que buscam uma estratégia de sustentabilidade perfeita recuam de ações que poderiam causar problemas regulatórios ou manchar a marca.
  • As empresas acreditam que há pouco valor e muitos riscos em serem verdadeiramente abertas sobre suas metas de sustentabilidade e climáticas. Mesmo que tenham confiança nesses objetivos, não querem se gabar deles por medo de que haja algo que possam estar omitindo ou exagerando sem saber, acompanhado de protestos, judicialização, danos à imagem corporativa e destruição de valor.
  • Green Hushing seria um exemplo de greenwashing, uma vez que as empresas não têm referência pública, apesar de alegarem estar agindo no interesse do meio ambiente. Seria um sinal de que uma organização já está fazendo greenwashing.

Oportunidades

As oportunidades associadas ao Green Hushing são:

  • Ficar quieto pode ser uma maneira útil de evitar a atenção da mídia e possíveis consequências enquanto descobre como funcionar no ambiente em regulação.
  • As empresas não querem ser chamadas se não atingirem suas metas estabelecidas.
  • As empresas não querem ser acusadas de greenwashing.
  • O combate ao greenwashing trará mais silêncio verde: O medo entre as empresas corporativas de serem denunciadas por alegações ambientais e de sustentabilidade enganosas e/ou exageradas está crescendo à medida que os reguladores reprimem e responsabilizam as empresas pelo greenwashing.
  • Menos comunicação voltada para o público torna os alvos mais difíceis de examinar e limita o compartilhamento de conhecimento.
  • A sustentabilidade é um universo relativamente novo dentro do mundo dos negócios, então a perfeição não é – e não deve – ser esperada de nenhum agente. As empresas precisam de tempo para se adaptar, assim como os consumidores para eventualmente transformar seu estilo de vida.
  • Legislação em vários mercados consumidores: normas de sustentabilidade bem estabelecidas atenuariam o impacto do Green Hushing.
  • Passaportes digitais (registro digital que segue o produto contendo os dados sobre sustentabilidade podem ser inseridos no blockchain) começaram a se popularizar em meio ao aumento da conscientização sobre o blockchain.
  • Os eventuais benefícios do greenwashing é de curta duração.
  • Decidir se deve ou não relatar o progresso nas metas de sustentabilidade se resume a “quem você quer irritar”.

Tendências

Na pesquisa KPMG “Pesquisa de Relatórios de Sustentabilidade” de 2022 temos:

  • “Nas últimas três décadas, os relatórios de sustentabilidade têm sido amplamente voluntários.
  • os formuladores de políticas estão prestes a adotar relatórios de sustentabilidade obrigatórios e regulamentados, e o cenário de relatórios está prestes a mudar drasticamente.
  • Os relatórios de sustentabilidade estão crescendo de forma incremental com o movimento em direção ao uso de padrões enquadrados pelas avaliações de materialidade das partes interessadas
  • Há mais relatórios sobre riscos relacionados ao clima e metas de redução de carbono, de acordo com o TCFD
  • Há uma consciência crescente sobre o risco da biodiversidade
  • Os relatórios sobre os ODS da ONU priorizam a quantidade em detrimento da qualidade
  • Os relatórios de riscos climáticos lideram, seguidos pelos riscos sociais e de governança.
  • Os padrões SASB foram desenvolvidos em 2011 para orientar as empresas na divulgação de sustentabilidade com foco no investidor. Em 2022, a SASB foi consolidada na IFRS Foundation com a ambição de se tornar o padrão global para divulgações de sustentabilidade para mercados financeiros. Há uma aceitação crescente dos padrões fora das Américas.
  • Em abril de 2021, a Comissão Europeia adotou uma proposta de Diretiva de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) para estender significativamente os requisitos de relatórios não financeiros existentes na UE. A proposta:
  • alarga o âmbito de reporte não financeiro obrigatório a todas as grandes empresas e a todas as empresas cotadas em mercados regulamentados
  • implementa uma auditoria de relatório obrigatório com garantia limitada, enquanto uma mudança para garantia razoável já está planejada
  • introduz requisitos de relatórios mais detalhados, incluídos no novo obrigatório Relatório de Sustentabilidade Europeu Standards (ESRS) que é atualmente desenvolvido pela European Financial Reporting Advisory Grupo (EFRAG)
  • exige que as empresas digitalizem os relatórios informações a fim de torná-las legíveis por máquina e acessíveis por meio de um único ponto de acesso.”

O download do relatório pode ser feito clicando aqui.

As Peneiras da Sabedoria de Sócrates

“Certa vez, um rapaz procurou Sócrates e disse-lhe que precisava contar algo sobre alguém. Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou:

– O que você vai me contar já passou pelas três peneiras?

– Três peneiras? – indagou o rapaz.

– Sim! A primeira peneira é a Verdade. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, mas não tem certeza da sua veracidade, a coisa deve morrer aqui mesmo.

– Suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a Bondade. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo?

– Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a Necessidade. Convém contar? Resolve alguma coisa? Melhora a comunidade? Pode ajudar o planeta?

Arremata Sócrates:

– Se passou pelas três peneiras, conte! Tanto eu, como você iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo!”

Sócrates (470 a.C.–399 a.C.) foi um filósofo ateniense do período clássico da Grécia Antiga. Um dos fundadores da filosofia ocidental e dos mais importantes filósofos da história é conhecido principalmente através dos relatos em obras seus alunos, Platão e Xenofonte, bem como pelas peças teatrais de seu contemporâneo Aristófanes.

Ele pessoalmente nada escreveu. Por sua ‘discrição’ muita coisa sobre Sócrates é de cunho hermenêutico. Assim sendo, é válido questionar se história sobre as 3 Peneiras da Sabedoria é verdadeira. Suas analogias, metáforas e suas ‘peneiras’ nos ajudam a entender sobre o ‘filtro’ daquilo que nos dizem.

As Peneiras da Sabedoria ESG

  1. Da Legalidade

A extrema e estrita legalidade pode ser um princípio fundamental muito importante. Muitas ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG podem até apresentar méritos intrínsecos e relevantes, mas ilegais à luz da legislação vigente.

As iniciativas ESG podem levar as empresas a violar as leis antitruste, de direitos civis e leis fiduciárias.

Por exemplo: a pressão pela equidade racial e de gênero pode estar violando o Art. 5º (C.F.) “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, que proíbe a discriminação com base em raça, cor, sexo, religião ou origem nacional.

Cabe ao setor produtivo cumprir e fazer cumprir na cadeia produtiva, os atos normativos que regulam cada seguimento e o meio ambiente (estimada em 60.000 normas ambientais, entre atos normativos da União, dos Estados e Municípios brasileiros, bem como órgãos de normalização técnica).

O tema é complexo e merece atenção especial. Confira mais detalhes no relatório intitulado “Liability Risks for the ESG Agenda” (clique aqui), do escritório de advocacia Boyden Gray, de Washington DC.

  1. Da Verdade

O relativismo moral em tempos de ESG pode tornar o conceito de verdade um “pouco” elástico:

“Reconhecemos o ponto de vista que a verdade e o conhecimento são apenas relativos e que não existem verdades rígidas e rápidas para todos os tempos e lugares.” (Benjamin Bloom)

“Tese é aquilo que você acredita ser verdade para si mesmo; Antítese é o que todos acreditam ser verdade para eles próprios; e Síntese é o que você e outros podem racionalmente vir a concordar ser verdade para todos… A verdade individual é relativa às necessidades sociais dos muitos e a verdade dos muitos deve considerar as necessidades pessoais dos poucos, ou de um só. Neste ciclo dialético, tudo é relativo, mutável e harmoniosamente desviante (heurística)… Isso faz com que a verdade mude à medida que a percepção da mente também muda. Portanto, se os fatos precisam se tornar flexíveis para a satisfação das necessidades do relacionamento pessoal e social, então a dedução dessa lógica é que a realidade encontra-se dentro das necessidades sentidas da sociedade, e não em uma autoridade externa manifesta, nem em um indivíduo qualquer, sua família, sua comunidade, ou sua nação. De acordo com essa lógica, não existem direitos inalienáveis. Todos os direitos estão baseados nas necessidades sentidas pela sociedade… Em vez de aceitar um mundo preto e branco, com suas respostas absolutas, certas e erradas, elas agora buscam um mundo cinzento em que a mudança torna-se absoluta, a verdade torna-se relativa e o desvio torna-se a norma.”. (Dean Gotcher)

Sem aprofundar o conceito dialético sobre a verdade, podemos resumir assim: as ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG são mensuráveis, reportáveis e verificáveis (MRV)?

  1. Da Honestidade

Metade das alegações ambientais usadas para anunciar produtos na União Europeia são enganosas ou infundadas. 53% das centenas de reivindicações avaliadas em 2020 forneciam “informações vagas, enganosas ou infundadas sobre as características ambientais dos produtos”. Bruxelas se prepara para introduzir regras para evitar alegações de lavagem verde.

Combater o greenwashing é uma obrigação moral, uma questão de honestidade. As questões climáticas em geral demonstram ser pouco claras incertas, ambíguas e enganosas para os consumidores, equivalendo a lavagem verde. Isto distorce o comércio justo e coloca as empresas “genuinamente sustentáveis” em desvantagem.

As empresas respondem cada vez mais à demanda dos consumidores por produtos que não prejudiquem o meio ambiente, por exemplo, comercializando-os como “100% veganos” ou “emissões zero”.

A transparência é um grande mecanismo de aprendizado e aperfeiçoamento. Através dela é possível impulsionar a transformação dos stakeholders, entendendo o que está sendo feito de errado, o que está sendo feito certo e o que ainda não se está fazendo.

As ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG se baseiam em informações cientificamente comprovadas, confiáveis, logicamente sólidas e transparentes?

  1. Da Boa Fama

Sinalização de Virtude: Tem muito “alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado” sinalizando virtude ou a correção moral de sua posição ao expressar publicamente opiniões de repúdio. Pode ser um alinhamento socialmente aceitável, porém desprovido de valor intrínseco. Exibições públicas de indignação online as vezes ignoram fatos relevantes para a compreensão do problema em questão. A falta de clareza e direção da iniciativa explicitando o que está errado, como deve ser feito e porque deve ser feito de forma diferente.

Quem lacra não lucra/ “Get woke, go broke”. Não necessariamente. Dar voz a “minorias” pode ser lucrativo. Estes “grupos” podem estar dispostos a recompensar as iniciativas em prol de “minorias” por serem vistos de maneira “pura e sem julgamentos”.

As ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG merecem uma análise cuidadosa dos riscos e oportunidades ao sinalizarem virtude ou a correção moral de sua posição ao expressar publicamente opiniões de repúdio.

  1. Da Justiça Social

Justiça social é uma construção moral e política baseada na igualdade de direitos e na solidariedade coletiva. Remete à justiça distributiva, aplicando-se aos desiguais.

O equilíbrio social é dinâmico, indeterminado e difuso – intrinsecamente conflituoso. Não existem regras específicas para sua definição. É definida no caso concreto, caso a caso. Está recheado de conceitos jurídicos indeterminados: meta(trans)individualidade; conflituosidade intrínseca e mutabilidade temporal e espacial.

As ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG merecem uma análise cuidadosa dos riscos e oportunidades quanto à justiça social, em especial sobre a extrema e estrita legalidade dos atos praticados.

  1. Da Prevenção e da Precaução

O princípio da prevenção (conjunto de práticas de análise e controle dos riscos que, desenvolvidas de forma continuada, num espírito de melhoria contínua) tem a finalidade de se evitar o risco concreto, e o princípio da precaução objetiva evitar o perigo abstrato cuja ocorrência seja verossímil para os acionistas (públicos ou privados) e partes interessadas (stakeholders).

A incerteza surge da possibilidade de se obter um resultado inesperado ou indesejado. Risco está relacionado à imprevisibilidade dos resultados desejáveis. Ou seja, o risco não é necessariamente uma certeza, é algo que pode acontecer ou não e pode gerar um dano/prejuízo ou não.

As ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG reduzem os riscos e as incertezas da operação da organização/instituição/empresa?

  1. Da Oportunidade

Inovação em ESG pode incluir atividades técnicas, concepção, desenvolvimento, gestão e que resulta na comercialização de novos (ou melhorados) produtos ou serviços, ou na primeira utilização de novos (ou melhorados) processos.

Fazer mais com menos recursos, por permitir gamas de eficiência em processos, quer produtivos quer administrativos ou financeiros, quer na prestação de serviços, potencializar e ser motor de competitividade.

Inovar possui caráter valorativo, na medida em que significa – mudar para melhor, corrigir ou adaptar a novas condições.

A concorrência pode motivar decisões que inicialmente não estaríamos dispostos a tomar. Por emulação ao tentar igualar-se a ou superar os concorrentes, podemos adotar/reproduzir iniciativas sem considerar os méritos intrínsecos e riscos associados.

A liderança no segmento de atuação pode se dar pelo exemplo. Quando se mergulha na sustentabilidade, ao liderar pelo exemplo é provável que os demais o sigam e, assim, tragam práticas mais inovadoras e responsáveis.

As ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG adicionarão vantagens competitivas ou comparativas em relação aos produtos e serviços ofertados pela organização/instituição/empresa?

  1. Do Valor Adicionado

Os acionistas possuem uma expectativa de ganho sobre seu negócio. O EVA (Economic Value Added), mostra se um investimento trouxe ganhos reais para os acionistas, ou seja, se está gerando valor. O objetivo é ter um maior retorno sobre o capital investido. Organizações podem ser chamadas de lucrativas somente quando geram riquezas para seus stakeholders.

As ações afirmativas, atividades, iniciativas, projetos, programas, planos e políticas ESG estão acrescentando valor ao acionista no médio e longo prazo?

Do que você quer se arrepender?

“Eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo a ela, não me salvo a mim” (José Ortega y Gasset). “Eu sou eu e minha circunstância” é concepção do homem como um “eu-circunstância”, indissociável do meio em que vive, distinto da realidade do entorno, mas inseparável deste. “se não salvo a ela, não me salvo a mim”, contém a ideia de que o homem que “quiser salvar-se deverá também salvar sua própria circunstância”, a realidade à sua volta. Implicitamente subordina a melhoria da condição do homem à sua ação.

Ao cristão é esperado o arrependimento dos pecados (sem o qual não há salvação). O conceito de pecado é amplo: transgressão ou qualquer violação deliberada ou desobediência às leis e ordenanças Divinas, um ato de ofensa contra Deus, soberba, iniquidade, falta de fé etc. Todos nós já ouvimos falar ou conhecemos os 10 mandamentos.

Dante Alighieri na sua obra-prima, A Divina Comédia, descreveu os diferentes círculos do Inferno e os associou a cada um dos sete pecados capitais. Na primeira parte da Divina Comédia, Inferno, Dante teve que descer os nove andares do chamado Malebolge (um Inferno em funil). Cada um era dedicado a um pecado, e quanto mais baixo mais graves eram. Os pecados eram: Orgulho, Avareza, Luxúria, Inveja, Gula, Ira, Preguiça, Heresia e Mentira.

Mas agora vem a parte menos conhecida do pecado: No Velho Testamento, apenas nos 5 primeiros livros (Pentateuco ou Torá para os judeus), existem 613 mandamentos! No Novo Testamento são 1.050 mandamentos! Enquanto no Velho Testamento o conceito de pecado estava associado à materialidade do ato praticado, no Novo Testamento a simples intenção de cometer o ato já constitui pecado, independentemente de sua concretude. Na Epístola Universal do Apóstolo São Jacobo (Tiago – um dos irmãos consanguíneos de Jesus Cristo) temos: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.” (Tiago 4:17)

Mesmo para aqueles de nós que não são cristãos, portanto, não consideram a existência do pecado, existe o princípio de causa e efeito. No budismo o Carma ou lei de causa e efeito, parte do pressuposto que tudo o que é vivo no universo está sujeito a tal lei. Uma ação, uma palavra ou um pensamento, é uma forma de criar uma causa. O efeito corresponde à causa praticada, boa ou má. No cânon Páli, o Buda cita, entre as cinco reflexões diárias, uma reflexão a ser feita em relação ao carma:

“Eu sou o dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações e tenho as minhas ações como árbitro. O que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei o herdeiro.”

Mesmo para os ateus e agnósticos, a Causalidade é a relação entre um evento A (a causa) e um segundo evento B (o efeito), em que o segundo evento seja uma consequência do primeiro. Embora causa e efeito sejam em geral referidos a eventos, também podem ser referidos a objetos, processos, atos praticados, situações, propriedades, variáveis, fatos ou estados de coisas.

A tendência humana é aceitar reflexivamente qualquer coisa que esteja de acordo com nossas crenças preexistentes e ignorar ou distorcer tudo o que as desafia. A razoabilidade, a racionalidade, a prudência e o bom senso, recomendam conhecer e poder refutar argumentos (contrários às nossas convicções) e proporcionar (caso necessário) contraprovas às afirmações e evidências apresentadas e combatê-las com argumentos racionais.

Mais do que parecer, é importante ser sustentável e socioambientalmente responsável, tendo por objetivo iniciativas cuja efetividade sejam inquestionáveis, mensuráveis, reportáveis e verificáveis (MRV). As empresas que usam termos como ‘verde’, ‘amiga do meio ambiente’ ou ‘sustentável’ devem apoiá-los com relatórios científicos, endossos ecologicamente corretos, informações transparentes da cadeia de suprimento e certificação respeitável de terceiros ou outras formas de evidência.

A fé sem obras está morta. Igualmente, a governança ambiental, social e corporativa (ESG) exige estratégias, decisões racionais e posições emocionalmente sustentáveis e moralmente defensáveis que sejam tecnicamente viáveis, economicamente acessíveis e socialmente aprimoradas. As ações serão mensuráveis, reportáveis e verificáveis (MRV) se o suporte da alta administração for mensurável, reportável e verificável.

O que nós somos nos controla, e ecoa tão alto, que as partes interessadas (stakeholders) não conseguem ouvir o que nós dizemos ao contrário. Para o aprimoramento das práticas empresariais e das políticas públicas o silêncio dos benefícios irrelevantes e inoportunos de nossas práticas de bluewashing, greenwashing, climatewashing e socialwashing são, às vezes, mais eloquentes que os discursos e relatórios fantásticos (e fantasiosos). Devemos fazer escolhas. “O difícil, vocês sabem, não é fácil…” já dizia o saudoso Vicente Matheus.

 

Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é Coordenador do Comitê de Inovação e Competitividade da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica – ABCE, assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico - FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance. https://www.linkedin.com/in/decio-michellis-jr-865619116/

Decio Michellis Jr. – Licenciado em Eletrotécnica, com MBA em Gestão Estratégica Socioambiental em Infraestrutura, extensão em Gestão de Recursos de Defesa e extensão em Direito da Energia Elétrica, é Coordenador do Comitê de Inovação e Competitividade da Associação Brasileira de Companhias de Energia Elétrica – ABCE, assessor técnico do Fórum do Meio Ambiente do Setor Elétrico – FMASE e especialista na gestão de riscos em projetos de financiamento na modalidade Project Finance.

 

 

 

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