sábado , 24 outubro 2020
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A Guerra dos Canudos e a real máscara no Réveillon

por Amadeu Rampazzo Junior.

 

Não, não se trata da Guerra de Canudos que foi um conflito armado que envolveu o Exército Brasileiro e membros da comunidade sócio religiosa liderada por Antônio Conselheiro, em Canudos, no interior do Estado da Bahia, entre 1896 e 1897, com a destruição da comunidade e a morte da maior parte dos 25.000 habitantes de Canudos.

A guerra é contra os canudos de plástico, visto que este texto trata campanhas para banir o consumo de canudos de plástico se estabeleceu como uma tendência praticamente irreversível desde 2018, onde muitas cafeterias, restaurantes de fast-food e outros estabelecimentos pararam de oferecer os canudos de plásticos juntamente com as bebidas.

Longe de ser o principal problema quando o assunto é poluição por plásticos, o canudo funciona como uma “porta de entrada” para discussões mais profundas. Os números impressionam: segundo a Revista Science, só nos Estados Unidos, mais de 500 milhões de canudos plásticos são utilizados diariamente, de acordo com uma pesquisa do governo. O Fórum Econômico Mundial relata a existência de 150 milhões de toneladas métricas de plásticos nos oceanos. Caso o consumo de plástico siga no mesmo ritmo de hoje, cientistas preveem que haverá mais plástico do que peixes no oceano até 2050[1].

A expectativa dos ativistas é que, ao chamar a discussão para os canudos plásticos, os consumidores se conscientizem e deixem de utilizar outros materiais de uso único, como sacolas e garrafas, que são responsáveis por índices de poluição maiores.

Tais dados são alarmantes e muitos não podem alegar desconhecimento de que o plástico é uma aberração para o meio ambiente, principalmente para a vida marinha, sendo que este material tem vida útil na natureza aproximadamente de 200 anos, ou seja, leva todo este tempo para se decompor, porém, nenhuma vida marinha pode esperar todo este tempo em vida para se  livrar deste mal que assola cada vez mais nossos oceanos.

Neste último Réveillon no Brasil, assistimos pelas redes sociais e nível de poluição nas praias e centros de lazer para as festas de fim de ano, com uma enxurrada enorme de plásticos, papéis, latas e lixo generalizado, não somente causando impacto visual, mas aumentando os riscos de poluição marinha, como também de rios e bueiros, que podem também provocar alagamentos em dias de chuvas intensas. Além de tudo isto, é um trabalho a mais para os garis que fazem todo o esforço da limpeza, atendendo assim a população em seu luxo, e arrogância e desprezo pelo cuidado ao meio ambiente, sem o mínimo de civilidade e educação.

A verdadeira guerra, não é só “contra” os canudos, mas sim, contra as pessoas que estão jogando este lixo, contra aqueles ativistas que além de lutar pela proibição dos canudos, se vestem de ativistas ambientais, atacando a suposta devastação da Amazônia e o Agronegócio, e na armadilha da própria hipocrisia não se dão conta que sobrevivem nos perímetros urbanos dependendo diretamente de produtos e alimentos do próprio agronegócio, mesmo quando estão consumindo de modo desenfreado até  mesmo nestas “festas poluidoras”.

No Brasil, a reciclagem de lixo ainda não é suficiente. De acordo com dados do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), apesar de 30% de todo o lixo produzido no Brasil ter potencial de reciclagem, apenas 3% de fato é reaproveitado. Destes resíduos, Alumínio é material mais reciclado no Brasil, segundo dados do IBGE, onde o alumínio com 91,5% da matéria prima utilizada na indústria é proveniente de alumínio reciclado, sendo que 46,5% do aço consumido na indústria vem de latas recicladas.

Em se falando somente de plásticos, segundo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o Brasil é o 4º maior produtor de lixo plástico do mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. O país também é um dos menos recicla este tipo de lixo: apenas 1,2% é reciclado, ou seja, 145.043 toneladas. Vejam os números:

  • Brasil produz 11.355.220 milhões de toneladas de lixo plástico por ano
  • Cada brasileiro produz 1 kg de lixo plástico por semana
  • Somente 145.043 toneladas de lixo plástico são recicladas
  • 2,4 milhões de toneladas de plástico são descartadas de forma irregular
  • 7,7 milhões de toneladas ficam em aterros sanitários
  • Mais de 1 milhão de toneladas não é recolhida no país

A Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010, instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, dispondo sobre seus princípios, objetivos e instrumentos, bem como sobre as diretrizes relativas à gestão integrada e ao gerenciamento de resíduos sólidos, incluídos os perigosos, às responsabilidades dos geradores e do poder público, que tem como ordem a Não Geração de Resíduo Sólido ou sua Redução e segue para a Reutilização, a Reciclagem, o Tratamento e seu Destino Final. Subentende-se então, que todos que poluem ambientes com estes resíduos são enquadrados como infratores da Lei, contudo, pela alegação de falta de conhecimento ou apenas desprezo, muitos praticam crime ambiental, sem qualquer punição.

Comparando estes fatos com os resíduos do agronegócio, mais precisamente dos defensivos agrícolas, este assunto vai bem, sim senhor, pois, segundo levantamento divulgado em junho/2019, pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e compilado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), aponta que o Brasil ocupa o 44º lugar na utilização de agrotóxicos. Em se tratando em recolhimento e reciclagem de embalagens vazias de defensivos agrícolas, o Brasil é referência mundial, conseguindo recolher 95% das embalagens utilizadas e está em 1º lugar no recolhimento de embalagens e destinação correta. Segundo o INPEV – Instituto Nacional de Processamento de Embalagens, no Sistema “Campo Limpo”, os agricultores são responsáveis após a utilização do defensivo, por lavar, inutilizar, armazenar e devolver as embalagens vazias; em segundo, os canais de distribuição e cooperativas são responsáveis por receber estas embalagens pela identificação das notas fiscais e seus locais de recebimento; em seguida, a indústria fabricante representada pelo INPEV são responsáveis por retirar estas embalagens das unidades de recebimento e dar um destino final e ao poder público cabe a fiscalização deste processo[2]. Vejam no vídeo:

Além disto, o agronegócio brasileiro é atualmente o que mais gera resíduo para energia limpa, como, por exemplo,  no caso das usinas de etanol, onde bagaços de cana são reaproveitado para cogeração de energia elétrica, como também, outros resíduos do campo estão sendo cada vez mais reciclados e fechando ciclos de agro sustentabilidade local, que só para este assunto daria um outro artigo específico com muitas informações benéficas.

É preciso dar um basta nas críticas emblemáticas do setor urbano ao setor rural, sendo que as cidades têm muito mais que aprender com a sustentabilidade do Agro. De um lado existem os adoradores da “pirralha” Greta Thunberg, gritando “Salve a Amazônia”, e de outro lado, gritam por abolir os canudos plásticos, mas todos se auto doutrinam apenas por manchetes de redes sociais, com sua preguiça de leituras confiáveis, e,  sem se importar realmente com a verdade da atividade mais sustentável em nossos país, preferem apenas atacar, em nome de seus ídolos ilusórios, pois é mais bonito e, dá mais “likes” nas redes para satisfazer suas vaidades. A guerra continua, porém não é só de canudos, e nem de Antonio Conselheiro, mas sim é uma guerra a favor da civilidade, educação ambiental e o bom uso da informação numa era de tecnologia, inovação e acessos. Não queremos esta guerra de fato, mas podemos evitar no futuro próximo a vergonha exposta nas redes sociais pelos lixos acumulados nas praias. Pelo menos, esta culpa, nós do setor Agro não carregamos.

Notas:

[1] Vide: https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2018/07/por-que-o-canudo-de-plastico-virou-o-inimigo-numero-1-do-meio-ambiente.html

[2] Fonte: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/nosso-campo/noticia/2019/08/18/embalagem-vazia-de-agrotoxico-tem-que-ir-para-o-lugar-certo.ghtml

Amadeu Rampazzo Junior – Engenheiro Agrônomo, ENGENORTE – Avaliações, Perícias e Meio Ambiente.
Sinop – MT

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