sábado , 24 fevereiro 2018
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Breves considerações sobre a RenovaBio e o cenário brasileiro de Biocombustíveis

por Jean Marc Sasson.

Em dezembro de 2017 foi publicada a Lei nº 13.576/2017 que dispõe sobre a Política Nacional de Biocombustíveis ou RenovaBio, tendo como objetivos principais contribuir para o atendimento aos compromissos do País no âmbito do Acordo de Paris e à adequada relação de eficiência energética e de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa na produção, na comercialização e no uso de biocombustíveis, inclusive com mecanismos de avaliação de ciclo de vida, por compreender a importância de agregar valor à biomassa brasileira e o papel estratégico dos biocombustíveis na matriz energética nacional.

Com efeito, o Brasil firmou, em Paris, metas compulsórias anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa, comprometendo-se perante a comunidade internacional a diminuir suas emissões em 37% até 2025, em relação aos níveis registrados em 2005.

Nesta linha, o governo propõe aumentar a participação da bioenergia na matriz energética brasileira em cerca de 18% até 2030, considerando, ainda, metas específicas e individuais para a comercialização de combustíveis, a chamada meta de descarbonização.

A meta de descarbonização, a ser instituída por regulamento, nada mais é que o desdobramento das nacionais em metas individuais anuais a serem aplicadas a todos os distribuidores de combustíveis, as quais serão proporcionais à respectiva participação de mercado na comercialização de combustíveis fósseis no ano anterior ao recebimento dos créditos de descarbonização, sob pena de multa entre 100 mil e 50 milhões de reais caso não se atinja a meta estabelecida.

Por sua vez, os créditos de descarbonização são instrumentos registrados sob a forma escritural, para fins de comprovação da meta individual do distribuidor de combustíveis e que poderão ser negociados em mercado organizado paralelo, inclusive por leilões.

Além disso, tendo em vista que a prioridade desta política é o aumento da eficiência energética com base em avaliação do ciclo de vida, isto é, incentivar fontes energéticas de menor emissão de gases causadores do efeito estufa em comparação às emissões auferidas pelo combustível fóssil, foi criado um modelo de certificação da produção ou importação eficiente de biocombustíveis que será concedido ao produtor ou ao importador de biocombustível que atender individualmente aos parâmetros definidos em regulamento.

Com base neste modelo, o setor privado definirá quanto de Crédito de Descarbonização de Biocombustíveis (CBIO) poderá ser negociado. A quantidade de CBIOs será ofertada de acordo com a capacidade de cada produtor de biocombustível em mitigar as emissões. O papel será certificado, negociado no mercado financeiro e adquirido por empresas com saldo positivo na emissão de carbono, ou seja, por empresas poluidoras, como forma de compensação.

Economistas entendem que com esta nova política há mais chances de haver redução dos preços dos biocombustíveis do que uma alta, uma vez que a receita obtida pelos produtores com os créditos de descarbonização reduziria o custo total de produção, sem contar que haveria um incentivo para ampliar a produtividade e a oferta do produto no mercado implicando na diminuição do preço. Isso porque a concessão dos créditos de descarbonização será dada de acordo com os ganhos de eficiência energética e ambiental do produtor, isto é, quanto maior a produtividade, mas créditos o produtor ganhará e, como consequência, o preço cairia.

Esta nova política federal só veio a consolidar e refletir o cenário brasileiro dos biocombustíveis atual.

O Brasil, sendo um país continental de clima tropical, permite o cultivo de diversas culturas vegetais, entre elas a cana-de-açúcar e leguminosas como a soja, milho, mamona, cacau etc que servem de matéria-prima para a produção de biocombustíveis, gerando o etanol – proveniente da cana-de-açúcar – e o biodiesel – proveniente de óleos vegetais e da gordura animal.

O biodiesel avançou significativamente no país a partir de 2004, enquanto o etanol é um programa de longa data desde a década de 70. Hoje o Brasil conta com indústria de biodiesel consolidada, com usinas aptas a produzí-lo e comercializá-lo, e com capacidade instalada superior a seis milhões de metros cúbicos, sendo, ao lado da Alemanha e Estados Unidos um dos maiores do mercado mundial de biodiesel.

Por sua vez, o etanol é produzido em aproximadamente dez bilhões de litros por ano. A produção de cana-de-açúcar no país cresceu muito e a instalação de usinas sucroalcooleiras deu um salto quantitativo enorme. Os estados que mais produzem cana-de-açúcar no país são, respectivamente, São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul. Existem, aproximadamente, 400 usinas instaladas no país. É importante salientar que nos últimos dez anos a quantidade de carros “flex” fabricados no país saiu de zero para quase três milhões. Hoje, representam pouco mais de 90% carros fabricados no país, demandando cada vez mais biocombustíveis.

Este cenário é tão significativo que a Agência Internacional de Energia (IEA) projeta que a produção de biocombustíveis no Brasil deverá crescer mais de 200%, produzindo 4,1 milhões de barris (65 bilhões de litros) até 2035. Segundo dados da agência[1], o uso de etanol no transporte subirá dos atuais 3% para 8% no mesmo período. Estima, ainda, que além de quase quadruplicar a geração de energias renováveis, o país responderá por 40% da exportação mundial de biocombustíveis.

Fora o benefício econômico e o incentivo á industria sucroalcooleira, o governo brasileiro aposta na produção de biocombustíveis para alcançar suas metas do acordo de paris e para mitigar os efeitos da mudança climática.

Com efeito, os biocombustíveis são derivados de biomassa renovável que podem substituir, parcial (atualmente substitui 36% da gasolina por etanol, e 8% do diesel fóssil por biodiesel) ou totalmente, combustíveis derivados de petróleo e gás natural em motores a combustão ou em outro tipo de geração de energia, podendo reduzir as emissões de gases de efeito estufa em cerca de 90%, sem contar a poluição atmosférica nos centros urbanos.

Isto porque o biocombustível é uma fonte de energia renovável e, em tese, uma fonte limpa. Apesar de emitir gases de efeito estufa na sua combustão, o vegetal fonte do combustível, tal como a cana de açúcar, sequestra a mesma quantidade de gás carbônico no seu cultivo, o que, na prática, equivale a emissão e o seqüestro do gás de efeito estufa. Assim, em comparação aos combustíveis fósseis que não são renováveis e contribuem para o aquecimento global, os biocombustíveis aparecem como parte da solução de mitigação dos efeitos climáticos.

Para além dos benefícios ambientais e econômicos, não se pode fugir das consequências sociais na produção de biocombustíveis. Além de estarem envolvidos constantemente em denúncias de mão-de-obra análoga à escrava, questiona-se, se a utilização desta matéria prima para a produção de energia ocorreria em detrimento da produção de alimentos e erradicação da fome.

A cada década, a população mundial cresce exponencialmente demandando cada vez mais por alimentos. Seria razoável deixar de produzir alimentos, bem tão básico da vida humana, para produzir energia? Ou ainda, valeria ter o preço dos alimentos majorados a favor do barateamento dos combustíveis?

Relatório da O.N.U. divulgado em 2007 chamou a atenção para este fato. Segundo o relatório, “Os biocombustíveis líquidos podem ameaçar a disponibilidade de suprimentos de comida adequados ao desviar terra e outros recursos de produção das plantações para alimento”. “Muitas plantações hoje usadas como fonte de biocombustível requerem terra agricultável de alta qualidade e uso significativo de fertilizantes, pesticidas e água.”

Contudo, este documento de 64 páginas, reconhece que “sistemas de bioenergia modernos bem projetados podem de fato aumentar a produção local de comida”. Se o combustível tornar-se significativamente mais barato, a cadeia de produção e distribuição de alimentos também poderá baratear o produto final.

Noutra via, conforme recente estudo elaborado pela NASA, a área do planeta ocupada por lavouras é de 1,87 bilhão de hectares. A população mundial atingiu 7,6 bilhões em outubro/2017, resultando que cada hectare, em média, alimentaria 4 pessoas. Na realidade, a produtividade por hectare varia muito, assim como o tipo e a qualidade dos cultivos. No Brasil, utiliza-se apenas 7,6% de seu território com lavouras, somando 63.994.479 hectares.[2]

Aparentemente, portanto, não haveria impedimento em produzir matéria-prima para produção de biocombustíveis. Em que pese utilizar um percentual baixo de terra agricultável, o problema reside onde as lavouras estão localizadas. A produção de monoculturas, como a soja no Mato Grosso, tem contribuído para o avanço da fronteira agrícola na Amazônia. Ao custo do desmatamento descontrolado, as monoculturas rumam em direção à região Amazônica, o que prejudica o benefício ambiental do combustível. Para a produção de cana-de-açúcar, milhares de hectares da Mata Atlântica foram suprimidos.

Neste sentido, poderíamos seguir o exemplo da União Européia que em 2008 através de lei comunitária, determinou que é proibido a produção de bicombustível em florestas, áreas pantanosas, reservas naturais ou áreas de extrema biodiversidade, além de forneceram incentivos fiscais para sua produção.

É verdade que o Programa Proálcool incentivou a produção a partir da cana-de-açúcar. Mas é necessário estender e criar outros programas federais a outras culturas. Já há um tímido incentivo à produção da mamona no Nordeste e na Caatinga como um todo, do dendê no Norte e da soja no Cerrado, Sul e Sudeste. Contudo, o conhecimento sobre o cultivo destas leguminosas é pequeno e o investimento em tecnologia está longe do ideal. A exploração de muitas delas, hoje, é economicamente inviável.

Diante deste cenário, uma das razões para acreditar no sucesso do RenovaBio se baseia na criação de um mercado de negociação de crédito de descarbonização, criando um instrumento econômico a ser gerido pela iniciativa privada que incentivará a produção de biocombustíveis, tornando-os economicamente viável. Contudo, esta política não criou qualquer incentivo ou reserva de investimentos voltadas para pesquisas para o descobrimento de novas fontes de biocombustíveis baratas e competitivas.

Em suma, as novas medidas trazidas pelo RenovaBio ainda dependem de regulamentação para saírem do papel, mas já parecem mais promissoras do que as ações para mitigação dos gases de efeito estufa que as antecederam, ao nomear quem deverá cumprir com a redução de emissões, de que forma e as penalidades aplicáveis no caso de infração.

A energia, sem dúvida, é fundamental para o progresso da humanidade. Já dizia Lavoisier que na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E não há transformação sem energia.

 

Notas:

[1] http://www.valor.com.br/agro/3482732/producao-de-biocombustiveis-no-brasil-deve-crescer-200-ate-2035

[2] https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/30972114/nasa-confirma-dados-da-embrapa-sobre-area-plantada-no-brasil

 

jean
Jean Marc Sasson. Advogado do Tabet Advogados. Formado pela PUC-RJ (2009). Mestre em Engenharia Ambiental e Urbana pela PUC-RJ e Universidade Técnica de Braunschweig, na Alemanha (2017). Especialista em Direito Ambiental pela PUC-RJ (2013). Especialista em Gestão Ambiental pela COPPE/UFRJ (2011). Atuou como consultor jurídico de entes públicos municipais na concepção e implantação de legislação ambiental e urbanística local, políticas públicas ambientais e planos diretores, especialmente na Amazônia Legal. É membro da União Brasileira da Advocacia Ambiental – UBAA.

Direito Ambiental

Confira o texto da Lei nº 13.576/2017:

LEI Nº 13.576, DE 26 DE DEZEMBRO DE 2017

Dispõe sobre a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) e dá outras providências.

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
CAPÍTULO I 
DA POLÍTICA NACIONAL DE BIOCOMBUSTÍVEIS
Art. 1º Fica instituída a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), parte integrante da política energética nacional de que trata o art. 1º da Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, com os seguintes objetivos:I – contribuir para o atendimento aos compromissos do País no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima;II – contribuir com a adequada relação de eficiência energética e de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa na produção, na comercialização e no uso de biocombustíveis, inclusive com mecanismos de avaliação de ciclo de vida;III – promover a adequada expansão da produção e do uso de biocombustíveis na matriz energética nacional, com ênfase na regularidade do abastecimento de combustíveis; e

IV – contribuir com previsibilidade para a participação competitiva dos diversos biocombustíveis no mercado nacional de combustíveis.

Art. 2º São fundamentos da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio):

I – a contribuição dos biocombustíveis para a segurança do abastecimento nacional de combustíveis, da preservação ambiental e para a promoção do desenvolvimento e da inclusão econômica e social;

II – a promoção da livre concorrência no mercado de biocombustíveis;

III – a importância da agregação de valor à biomassa brasileira; e

IV – o papel estratégico dos biocombustíveis na matriz energética nacional.

Art. 3º A Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), composta por ações, atividades, projetos e programas, deverá viabilizar oferta de energia cada vez mais sustentável, competitiva e segura, observados os seguintes princípios:

I – previsibilidade para a participação dos biocombustíveis, com ênfase na sustentabilidade da indústria de biocombustíveis e na segurança do abastecimento;

II – proteção dos interesses do consumidor quanto a preço, qualidade e oferta de produtos;

III – eficácia dos biocombustíveis em contribuir para a mitigação efetiva de emissões de gases causadores do efeito estufa e de poluentes locais;

IV – potencial de contribuição do mercado de biocombustíveis para a geração de emprego e de renda e para o desenvolvimento regional, bem como para a promoção de cadeias de valor relacionadas à bioeconomia sustentável;

V – avanço da eficiência energética, com o uso de biocombustíveis em veículos, em máquinas e em equipamentos; e

VI – impulso ao desenvolvimento tecnológico e à inovação, visando a consolidar a base tecnológica, a aumentar a competitividade dos biocombustíveis na matriz energética nacional e a acelerar o desenvolvimento e a inserção comercial de biocombustíveis avançados e de novos biocombustíveis.

Art. 4º São instrumentos da Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), entre outros:

I – as metas de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa na matriz de combustíveis de que trata o Capítulo III desta Lei;

II – os Créditos de Descarbonização de que trata o Capítulo V desta Lei;

III – a Certificação de Biocombustíveis de que trata o Capítulo VI desta Lei;

IV – as adições compulsórias de biocombustíveis aos combustíveis fósseis;

V – os incentivos fiscais, financeiros e creditícios; e

VI – as ações no âmbito do Acordo de Paris sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

Parágrafo único. Os instrumentos previstos neste artigo, em relação às metas de redução das emissões mencionadas no inciso II do caput do art. 1º desta Lei, guardarão compatibilidade com as metas previstas para os demais setores.

CAPÍTULO II 
DAS DEFINIÇÕES
Art. 5º Ficam estabelecidas as seguintes definições:

I – Certificação de Biocombustíveis: conjunto de procedimentos e critérios em um processo, no qual a firma inspetora avalia a conformidade da mensuração de aspectos relativos à produção ou à importação de biocombustíveis, em função da eficiência energética e das emissões de gases do efeito estufa, com base em avaliação do ciclo de vida;

II – Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis: documento emitido exclusivamente por firma inspetora como resultado do processo de Certificação de Biocombustíveis;

III – ciclo de vida: estágios consecutivos e encadeados de um sistema de produto, desde a matéria-prima ou de sua geração a partir de recursos naturais até a disposição final, conforme definido em regulamento;

IV – credenciamento: procedimento pelo qual se avalia, qualifica, credencia e registra a habilitação de uma firma inspetora para realizar a certificação e emitir o Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis;

V – Crédito de Descarbonização (CBIO): instrumento registrado sob a forma escritural, para fins de comprovação da meta individual do distribuidor de combustíveis de que trata o art. 7º desta Lei;

VI – distribuidor de combustíveis: agente econômico autorizado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a exercer a atividade de distribuição de combustíveis, nos termos do regulamento próprio da ANP;

VII – emissor primário: produtor ou importador de biocombustível, autorizado pela ANP, habilitado a solicitar a emissão de Crédito de Descarbonização em quantidade proporcional ao volume de biocombustível produzido ou importado e comercializado, relativamente à Nota de Eficiência Energético-Ambiental constante do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis, nos termos definidos em regulamento;

VIII – escriturador: banco ou instituição financeira contratada pelo produtor ou pelo importador de biocombustível responsável pela emissão de Créditos de Descarbonização escriturais em nome do emissor primário;

IX – firma inspetora: organismo credenciado para realizar a Certificação de Biocombustíveis e emitir o Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis e a Nota de Eficiência Energético- Ambiental;

X – importador de biocombustível: agente econômico autorizado pela ANP a exercer a atividade de importação de biocombustível, nos termos do regulamento;

XI – intensidade de carbono: relação da emissão de gases causadores do efeito estufa, com base em avaliação do ciclo de vida, computada no processo produtivo do combustível, por unidade de energia;

XII – meta de descarbonização: meta fixada para assegurar menor intensidade de carbono na matriz nacional de combustíveis;

XIII – Nota de Eficiência Energético-Ambiental: valor atribuído no Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis, individualmente, por emissor primário, que representa a diferença entre a intensidade de carbono de seu combustível fóssil substituto e sua intensidade de carbono estabelecida no processo de certificação;

XIV – produtor de biocombustível: agente econômico, nos termos do art. 68-A da Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, autorizado pela ANP a exercer a atividade de produção de biocombustível, conforme o regulamento próprio da ANP; e

XV – sistema de produto: coleção de processos unitários, com fluxos elementares e de produtos, que realizam uma ou mais funções definidas e que modelam o ciclo de vida de um produto.

CAPÍTULO III 
DAS METAS DE REDUÇÃO DE EMISSÕES NA MATRIZ
DE COMBUSTÍVEIS
Art. 6º As metas compulsórias anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para a comercialização de combustíveis serão definidas em regulamento, considerada a melhoria da intensidade de carbono da matriz brasileira de combustíveis ao longo do tempo, para um período mínimo de dez anos, observados:

I – a proteção dos interesses do consumidor quanto a preço, qualidade e oferta de combustíveis;

II – a disponibilidade de oferta de biocombustíveis por produtores e por importadores detentores do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis;

III – (VETADO);

IV – a valorização dos recursos energéticos;

V – a evolução do consumo nacional de combustíveis e das importações;

VI – os compromissos internacionais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa assumidos pelo Brasil e ações setoriais no âmbito desses compromissos; e

VII – o impacto de preços de combustíveis em índices de inflação.

Art. 7º A meta compulsória anual de que trata o art. 6º desta Lei será desdobrada, para cada ano corrente, em metas individuais, aplicadas a todos os distribuidores de combustíveis, proporcionais à respectiva participação de mercado na comercialização de combustíveis fósseis no ano anterior.

§ 1º As metas individuais de cada distribuidor de combustíveis deverão ser tornadas públicas, preferencialmente por meio eletrônico.

§ 2º A comprovação de atendimento à meta individual por cada distribuidor de combustíveis será realizada a partir da quantidade de Créditos de Descarbonização em sua propriedade, na data definida em regulamento.

§ 3º Cada distribuidor de combustíveis comprovará ter alcançado sua meta individual de acordo com sua estratégia, sem prejuízo às adições volumétricas previstas em lei específica, como de etanol à gasolina e de biodiesel ao óleo diesel.

§ 4º Até 15% (quinze por cento) da meta individual de um ano poderá ser comprovada pelo distribuidor de combustíveis no ano subsequente, desde que tenha comprovado cumprimento integral da meta no ano anterior.

Art. 8º O regulamento poderá autorizar a redução da meta individual do distribuidor de combustíveis nos seguintes casos:

I – aquisição de biocombustíveis mediante:

a) contratos de fornecimento com prazo superior a um ano, firmados com produtor de biocombustível detentor do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis;
b) (VETADO);

II – (VETADO).

Art. 9º O não atendimento à meta individual sujeitará o distribuidor de combustíveis à multa, proporcional à quantidade de Crédito de Descarbonização que deixou de ser comprovada, sem prejuízo das demais sanções administrativas e pecuniárias previstas nesta Lei e na Lei nº 9.847, de 26 de outubro de 1999, e de outras de natureza civil e penal cabíveis.

Parágrafo único. A multa a que se refere o caput deste artigo poderá variar, nos termos do regulamento, entre R$ 100.000,00 (cem mil reais) e R$ 50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais).

Art. 10. Serão anualmente publicados o percentual de atendimento à meta individual por cada distribuidor de combustíveis e, quando for o caso, as respectivas sanções administrativas e pecuniárias aplicadas.

CAPÍTULO IV 
DO MONITORAMENTO DE BIOCOMBUSTÍVEIS
E COMBUSTÍVEIS
Art. 11. O monitoramento do abastecimento nacional de biocombustíveis será realizado nos termos de regulamento, e servirá de base para a definição:

I – das metas compulsórias anuais de redução de emissões de gases causadores do efeito estufa para a comercialização de combustíveis, nos termos do art. 6º desta Lei, e dos respectivos intervalos de tolerância;

II – dos critérios, diretrizes e parâmetros para o credenciamento de firmas inspetoras e a Certificação de Biocombustíveis; e

III – dos requisitos para regulação técnica e econômica do Crédito de Descarbonização.

Art. 12. Previamente à sua aprovação, as metas compulsórias a que se refere o inciso I do caput do art. 11 desta Lei deverão ser submetidas a consulta pública.

CAPÍTULO V 
DO CRÉDITO DE DESCARBONIZAÇÃO (CBIO)
Art. 13. A emissão primária de Créditos de Descarbonização será efetuada, sob a forma escritural, nos livros ou registros do escriturador, mediante solicitação do emissor primário, em quantidade proporcional ao volume de biocombustível produzido, importado e comercializado.

§ 1º A definição da quantidade de Créditos de Descarbonização a serem emitidos considerará o volume de biocombustível produzido, importado e comercializado pelo emissor primário, observada a respectiva Nota de Eficiência Energético-Ambiental constante do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis do emissor primário.

§ 2º A solicitação de que trata o caput deste artigo deverá ser efetuada em até sessenta dias pelo emissor primário da nota fiscal de compra e venda do biocombustível, extinguindo-se, para todos os efeitos, o direito de emissão de Crédito de Descarbonização após esse período.

Art. 14. O Crédito de Descarbonização deve conter as seguintes informações:

I – denominação “Crédito de Descarbonização – CBIO”;

II – número de controle;

III – data de emissão do Crédito de Descarbonização;

IV – identificação, qualificação e endereços das empresas destacadas na nota fiscal de compra e venda do biocombustível que servirão de lastro ao Crédito de Descarbonização;

V – data de emissão da nota fiscal que servirá de lastro ao Crédito de Descarbonização;

VI – descrição e código do produto constantes da nota fiscal que servirão de lastro ao Crédito de Descarbonização; e

VII – peso bruto e volume comercializado constantes da nota fiscal que servirão de lastro ao Crédito de Descarbonização.

Art. 15. A negociação dos Créditos de Descarbonização será feita em mercados organizados, inclusive em leilões.

Art. 16. O escriturador será o responsável pela manutenção do registro da cadeia de negócios ocorridos no período em que os títulos estiverem registrados.

 
Art. 17. Regulamento disporá sobre a emissão, o vencimento, a distribuição, a intermediação, a custódia, a negociação e os demais aspectos relacionados aos Créditos de Descarbonização.

CAPÍTULO VI 
DA CERTIFICAÇÃO DE BIOCOMBUSTÍVEIS
Art. 18. A certificação da produção ou importação eficiente de biocombustíveis, para os fins desta Lei, terá como prioridade o aumento da eficiência, com base em avaliação do ciclo de vida, em termos de conteúdo energético com menor emissão de gases causadores do efeito estufa em comparação às emissões auferidas pelo combustível fóssil.

Parágrafo único. Regulamento estabelecerá os critérios, os procedimentos e as responsabilidades para concessão, renovação, suspensão e cancelamento do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis.

Art. 19. O Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis será concedido ao produtor ou ao importador de biocombustível que atender individualmente aos parâmetros definidos em regulamento.

§ 1º O Certificado de que trata o caput deste artigo terá validade de até quatro anos, renovável sucessivamente por igual período.

§ 2º (VETADO).

Art. 20. Para a emissão do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis, poderão ser exigidos garantias, seguro e capital mínimo integralizado, para o fiel cumprimento de suas obrigações.

Art. 21. O Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis incluirá expressamente a Nota de Eficiência Energético-Ambiental do emissor primário.

Art. 22. No âmbito do credenciamento de firma inspetora referente à certificação da produção ou importação eficiente de biocombustíveis, cabe ao órgão competente, nos termos de regulamento:
I – estabelecer os procedimentos e responsabilidades para o credenciamento da firma inspetora;

II – proceder ao credenciamento, por ato administrativo próprio ou mediante instrumento específico, com órgãos da Administração Pública direta e indireta da União;

III – manter atualizada na internet a relação das Firmas Inspetoras credenciadas;

IV – fiscalizar as firmas inspetoras credenciadas e aplicar as sanções administrativas e pecuniárias, quanto ao cumprimento dos requisitos previstos nesta Lei e em atos relacionados;

V – solicitar dados e informações das firmas inspetoras e estabelecer prazos de atendimento, para fins de avaliação, monitoramento e fiscalização; e

VI – auditar o processo de emissão ou de renovação do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis.

Parágrafo único. Anualmente, deverá ser publicado na internet relatório com o resultado das ações de fiscalização e com as eventuais sanções administrativas e pecuniárias aplicadas às firmas inspetoras.

Art. 23. No âmbito da certificação da produção ou importação eficiente de biocombustíveis, será realizada, nos termos de regulamento, fiscalização da movimentação de combustíveis comercializados, de forma a verificar sua adequação com os Créditos de Descarbonização emitidos e o cumprimento das metas individuais compulsórias.

§ 1º Para atendimento ao disposto no caput deste artigo, serão requisitados dados e informações dos produtores de biocombustíveis, dos importadores de biocombustíveis e dos distribuidores de combustíveis, sem prejuízo de outras ações de monitoramento e fiscalização definidas na Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997, e na Lei nº 9.847, de 26 de outubro de 1999.

§ 2º Será publicada na internet lista atualizada dos Certificados da Produção ou Importação Eficiente de Biocombustíveis emitidos, renovados, suspensos, cancelados ou expirados, em base mensal, com informações do produtor ou do importador de biocombustível, da Nota de Eficiência Energético-Ambiental, da validade do certificado, do volume produzido e do volume comercializado, sem prejuízo de demais dados previstos no regulamento.

§ 3º (VETADO).

Art. 24. Previamente à emissão ou à renovação do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis, a firma inspetora submeterá a consulta pública, por no mínimo trinta dias, proposta de certificação, com indicação expressa da proposição da Nota de Eficiência Energético-Ambiental a ser atribuída, cabendolhe dar ampla divulgação ao processo.

§ 1º A proposta de certificação incluirá os valores e os dados utilizados para a proposição da Nota de Eficiência Energético-Ambiental.

§ 2º As sugestões e os comentários apresentados durante a consulta pública serão considerados pela firma inspetora:

I – com incorporação ao processo daqueles que forem pertinentes; e

II – com recusa motivada dos demais.

§ 3º A firma inspetora deverá dar ciência aos órgãos federais competentes acerca do resultado da consulta pública, que incluirá as sugestões e os comentários apresentados e sua avaliação.

§ 4º É assegurado, mediante prévia solicitação, amplo acesso à integralidade do processo de certificação.

Art. 25. Durante o período de suspensão ou de cancelamento do Certificado da Produção Eficiente de Biocombustíveis, a quantidade de biocombustível produzido, importado, comercializado, negociado, despachado ou entregue não surtirá efeito para fins de emissão de Créditos de Descarbonização.

Art. 26. (VETADO).

CAPÍTULO VII 
DISPOSIÇÕES GERAIS
Art. 27. Na comercialização de biodiesel por meio de leilões públicos, deverão ser estabelecidos mecanismos e metas para assegurar a participação prioritária de produtores de biodiesel de pequeno porte e de agricultores familiares.

§ 1º Regulamento estabelecerá as condições para a participação dos produtores de biodiesel de pequeno porte de que trata o caput deste artigo.

§ 2º Para a definição de produtores de pequeno porte, aplica-se o disposto na Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006.

Art. 28. Será aplicado um bônus sobre a Nota de Eficiência Energético-Ambiental do produtor ou do importador de biocombustível cuja Certificação de Biocombustíveis comprove a emissão negativa de gases causadores do efeito estufa no ciclo de vida em relação ao seu substituto de origem fóssil.

Parágrafo único. Será de até 20% (vinte por cento) sobre o valor da Nota de Eficiência Energético-Ambiental mencionada no caput deste artigo o valor do bônus previsto neste artigo.

Art. 29. Os infratores às disposições desta Lei e às demais normas pertinentes ficarão sujeitos, nos termos de regulamento, às sanções administrativas e pecuniárias previstas na Lei nº 9.847, de 26 de outubro de 1999, sem prejuízo de outras de natureza civil e penal cabíveis.

Art. 30. Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Parágrafo único. As metas compulsórias a que se refere o art. 6º desta Lei entrarão em vigor em cento e oitenta dias, contados a partir da data de sanção, e as metas a que se refere o inciso I do caput do art. 11 desta Lei entrarão em vigor dezoito meses após a entrada em vigor das metas previstas no art. 6º desta Lei.

Brasília, 26 de dezembro de 2017; 196º da Independência e 129º da República.

MICHEL TEMER
Henrique Meirelles
Esteves Pedro Colnago Junior

Este texto não substitui o original publicado no Diário Oficial da União – Seção 1 de 27/12/2017
Direito Ambiental

Leia também:

Óleo de cozinha é transformado em biodiesel (Portal DireitoAmbiental.com, 03/03/2016)
Direito Ambiental

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Justiça anula processo administrativo e condena órgão ambiental em dano moral

A 21ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul julgou improcedente ...

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